sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A FIGURA DO NEGRO E DA MULHER: UMA ANÁLISE DO ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS

                                                                 

FACULDADE DE SÃO VICENTE – UNIBR
LETRAS

KELLY SANTANA MAURICIO
MATHEUS HENRIQUE BARROS MORAES
VIVIANE SILVA TIMOTEO





A FIGURA DO NEGRO E DA MULHER: UMA ANÁLISE DO ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS











                                            São Vicente
2013
KELLY SANTANA MAURICIO
MATHEUS HENRIQUE BARROS MORAES
VIVIANE SILVA TIMOTEO








A FIGURA DO NEGRO E DA MULHER: UMA ANÁLISE DO ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS




Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Letras, como requisito para obtenção do título de licenciado em Língua Portuguesa e Inglesa.

Orientadora: Prof.ª Márcia Pimenta





São Vicente
2013


  SUMÁRIO



















INTRODUÇÃO


A mulher no Brasil até os meados do século XIX era vista somente como reprodutora e cuidadora do lar e não recebia educação. A função da mulher na época se restringia a serviços domésticos, submissão ao marido e à família. Somente após a chegada da família real portuguesa, a mulher começou a frequentar a escola, mesmo que com certo tom de discriminação.
As mulheres que eram afro-brasileiras enfrentavam maiores problemas, pois sofriam preconceitos, discriminações e eram tidas como objeto e estereotipadas, por isso a mulher negra era objeto de tripla discriminação, uma vez que os estereótipos gerados pelo racismo e pelo sexíssimo a colocam no mais baixo nível de opressão”. (GONZALEZ, 1982, p.97). Poucas dessas mulheres tinham acesso à escola e à educação, porém as que recebiam esses privilégios viam na literatura um modo de ressaltar sua importância na sociedade, com isso produziam livros utilizando pseudônimo com intuito de escapar da repressão.  Maria Firmina dos Reis, autora fonte dessa pesquisa, foi uma dessas mulheres. Seu pseudônimo era ‘’A maranhense’’. Nascida em 11 de outubro de 1825 em São Luiz do Maranhão, a então menina bastarda e mestiça teve uma vida difícil, seu pai era negro e escravo e sua mãe filha de portugueses.
Sua primeira obra, intitulada Úrsula, escrita no ano de 1859, momento em que a prosa de ficção estava dando seus primeiros passos no Brasil, a autora apresenta um romance romântico, muito parecido com o romance gótico inglês, revela através de seus personagens uma questão social e muito sensível para aquela época: a escravidão. O moderno e surpreendente na obra está na história dos escravos e seus diálogos, dando características e importância até então não encontrada em histórias anteriormente apresentados naquele período. As obras de Maria Firmina vêm com algo inovador, antecipando obras como a de Castro Alves em o Navio Negreiro (produzida de 1876 à 1883), Joaquim Manoel de Macedo em Vítimas algozes (1869) e o romance Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, pertencentes ao romantismo.
Firmina é hoje considerada a primeira autora da literatura afro-brasileira e seu romance Úrsula o primeiro romance abolicionista brasileiro. Com isso, esse trabalho foca sua pesquisa no romance romântico brasileiro de cunho social ligado à era abolicionista e a perspectiva feminina diante de uma sociedade ainda retrógada, portanto baseando-se em teóricos especialistas nessa escola e o contexto que este período teve e tem na história da literatura, citando os principais: Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira, que trouxe para este estudo a coesão do período romântico da literatura brasileira, podendo, assim, introduzir nesse trabalho o contexto histórico do Brasil da época.                                                                                              Outro teórico importante é Afrânio Coutinho em Introdução à Literatura no Brasil, pois sua clareza e organização da prosa romântica, como também a teoria da literatura destacou aspectos importantes à análise literária da obra em questão. Antônio Soares Amora com sua História da Literatura Brasileira confirmou todo o conteúdo estudado anteriormente, uma vez que toda referência nesse livro possibilitou uma maior expansão de ideias contextualizadas com o período histórico referente a prosa literária brasileira.                                                                                                                                             Por fim, Maria Lucia Mott, em Submissão e Resistência: A mulher Negra na Luta contra a Escravidão, que serviu de base principal à análise do negro durante a escravidão, como também a inovação da mulher no contexto histórico e sua efetiva participação na construção do Brasil e da literatura brasileira, fato que subsidia nossa pesquisa sobre o romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. Em suma esse trabalho tem por objetivo analisar os personagens negros e a estética dedicada aos personagens femininos contextualizando a submissão que há entre os dois grupos, como também a inauguração que Firmina aplicou em seu romance caracterizando o negro e a sua voz como parte principal de seu romance abolicionista.







1.    A LITERATURA ABOLICIONISTA NO BRASIL OITOCENTISTA


Nos primeiros anos de colonização no Brasil, a questão da escravidão ainda era tida como irrelevante para a literatura e só ocuparia espaço importante no século XIX, com a introdução do Romantismo e, principalmente, as reivindicações que o mesmo trazia consigo, expressando sentimentos de igualdade, fraternidade e liberdade, misturados à resignação e revolta.

1.1.      A Escravidão


Os navios negreiros ficaram conhecidos por serem o meio de transporte que traficava os negros trazidos da África. Esse tráfico aconteceu a partir do século XV e perdurou até o século XIX. Milhares de pessoas, entre elas crianças e mulheres, foram arrancados de seu país, e pior, transportados em mínimos espaços reservados nos navios, sem levar em conta a falta de higiene, água e alimentação. Por isso, no mesmo espaço, encontravam-se a fome, a sede, as doenças, a sujeira, os agonizantes e os mortos. Eram em média 400 negros transportados em cada espaço desses. As condições dos negros amontoados e acorrentados eram míseras e, assim, atravessavam o Atlântico ancorando nos litorais brasileiros.                                                   No Brasil, houve um grande lucro através desse mercado e, devido a isso, se originou a Companhia Geral de Comércio do Brasil, em 1649. Além da escravidão, os africanos perceberam que o desafio, na verdade, era sobreviver, apesar do que tinham de enfrentar. Assim, teriam que conviver com a brutalidade que sofreram ao serem arrancados de suas terras e de seus ancestrais. Nota-se que a escravidão, literalmente, era submissão aos proprietários e, portanto, suscetíveis a serem trocados, vendidos e comprados, além de trabalhar sem cessar nas variadas e árduas ocupações como: a extração de ouro e pedras das minas, plantando e colhendo cana, café, cacau, algodão e produtos tropicais para exportação. Além do campo, eles formaram uma mão de obra numerosa e a maior na construção de casas, fábricas, estradas etc.. “Eram também os responsáveis pela distribuição de alimentos, como vendedores ambulantes e quitandeiras que povoaram as ruas das grandes e pequenas cidades brasileiras’’. (LIMA, 2005. p. 65). A Constituição brasileira, de 1824, considerada moderna e liberal, deixou prevalecer o direito dos proprietários sobre seus escravos. Isso baseado no liberalismo, o qual refletia que todos os homens eram livres e iguais, por isso o sistema escravocrata tornou-se um dilema insistente no Brasil no século XIX. Um sistema econômico que formou conceitos e definiu uma sociedade desigual, forjando pensamentos, juízos e comportamentos de mandar e obedecer. A partir daí os lugares foram instituídos e os cidadãos deveriam ocupar seu lugar na sociedade, eles mandavam e os outros obedeciam.                                                                                           Os negros oprimidos na sociedade não podiam, legalmente, firmar contratos, possuir bens, ser testemunha em processos, muito menos escolher trabalho ou para quem devia trabalhar, a mortalidade era alta e a taxa de nascimentos baixa, por isso era necessário adquirir novos escravos e substituí-los pelos velhos ou mortos.                            Em 1822, o Brasil deixou de ser dependente de Portugal, no entanto, no século XIX, escravos e escravas padeciam no engenho de cansaço, devido ao desgaste físico e por isso não podiam trabalhar. Diante da posição social ocupada pelo negro sempre lhe foi atribuída à responsabilidade, não se considerando a estrutura social e internalizando-se a ideia de que se o negro não venceu é por que este não tem capacidade. Divulgado no século XVIII, o racismo científico calculava uma preconceituosa pesquisa sobre as diferenças das raças, como anatomia do negro comparada a do branco, o intelecto que foi considerado, biologicamente, sendo inferior, ou seja, estudos científicos baseados no interesse da elite que patrocinavam tais divulgações.
O racismo científico é claramente uma ideologia na qual está afirmada a superioridade cultural indiscutível da raça branca, já que a civilização está associada aos brancos e a seus atributos físicos, enquanto a barbárie ou a selvageria é associada às outras raças. (WIEVIORKA, 2007, p. 24).

E essa atitude preconceituosa e egoísta contribuiu para a continuação dessa forma brutal e desumana de manter um sistema escravocrata no mundo e aqui no Brasil por mais de três séculos. Portanto, caracteriza-se o período colonial e imperial brasileiro como uma clara sociedade escravagista, pois não eram apenas donos de escravos e sim patrocinadores da escravidão, os mesmos eram racistas porque negros mestiços e escravos livres permaneceram como seres inferiores perante os brancos europeus ou brasileiros.

1.1.1.                 A Abolição da escravatura no Brasil



A campanha política que aconteceu nos últimos dez anos antes da libertação dos escravos defendia o fim da escravidão no Brasil. Em 1888, a Lei Áurea foi decretada, acabando com o regime escravagista que existia desde o período colonial. O lucro escravo começava a declinar com o fim do tráfico, em 1850, e, concomitantemente, formava-se um novo mercado operário, desta vez pelos imigrantes que eram assalariados e não escravos. A campanha abolicionista cresceu após o início da Guerra do Paraguai, que durou 5 anos até 1870, pois centenas de ex- escravos que voltavam da guerra com a vitória não se submetiam mais à condição anteriormente exercida, a de escravo, e tornaram-se um problema social, o que resultou numa questão política afetando diretamente a elite imperial.                                                                                       Dentre muitas leis que entraram em vigor no longo de três séculos, a Lei do Ventre Livre é considerada a pioneira no Brasil, pois, em 1871, ela libertaria os filhos de escravos que nasceram a partir dessa data, porém estes escravos conseguiam mesmo sua liberdade quando completavam vinte anos, ou seja, é uma lei estética que continuava aprisionando o negro por mais de vinte anos.                                                           Neste momento importante e decisivo, o Brasil estava em busca de justiça e liberdade, contudo o Ceará foi o primeiro Estado a declarar a abolição no dia 25 de março de 1884, o que impulsionou os demais estados brasileiros, proporcionando o fim gradual e definitivo da escravidão no Brasil, porém o fim aconteceu mesmo quando os escravos começaram a fugir de suas fazendas, alojando-se em outras que eram a favor da abolição, desestruturando de forma totalizadora as finanças dos proprietários.                   Outra lei que favoreceu aos negros foi a Lei dos Sexagenários, promulgada em 1885, que dava liberdade aos negros com mais de sessenta anos, em troca os proprietários receberiam uma recompensa, porém poucos escravos atingiam essa idade vivendo em horríveis condições e os que sobreviviam não tinham condições de trabalhar. Em 13 de maio de 1888, a elite dominante e as leis imperiais não conseguiam mais burlar a abolição, e a princesa Isabel assina a Lei Áurea. Em contrapartida, os fazendeiros revoltados exigiam indenizações pelos seus bens, descontentes pelo prejuízo, entram no movimento republicano a fim de pressionar o governo. Com esta decisão o Império cai junto com sua forma de lucro e sustentação. O fim da escravatura, porém, não melhorou a questão social dos ex – escravos, que não têm acesso à educação, muito menos a uma formação profissional, por isso a emancipação jurídica, apenas, não serviu de subsídio a sua libertação como cidadão. Os negros ex- escravos continuaram sendo a classe esquecida da sociedade brasileira e mesmo depois da proibição, o tráfico de escravos continuou proporcionando um grande desequilíbrio nacional. Historicamente pode-se afirmar que:

O Treze de Maio não é uma data apenas entre outras, número neutro, notação cronológica. Não se decretava oficialmente o exílio do ex- cativo, mas passaria a vivê-lo como estigma na cor da sua pele. (BOSI, 1992, p. 272)

Dessa forma, a abolição não passou de uma fase burocrática e insatisfatória, pois a falta de estrutura fez com que a realidade dos negros continuasse a mesma, devido à alienação dos mesmos que foram marginalizados por três gerações e cujo momento de alforria fora mal entendido. Assim, sem assistência social, os negros continuaram com seu labor, porém dentre muitos houve os que se sobressaíram e fizeram de sua cor uma referência à liberdade entre os homens, lutando e reivindicando sua posição dentro de uma sociedade ainda racista.


Essa temática, na literatura, apresentou-se de diferentes formas no decorrer dos séculos. Depois de 1860, com o Brasil vivendo os dramas da campanha abolicionista, esse assunto passa a ser explorado de forma artística e política pelos românticos que, finalmente, retrataram a escravidão negra, uma vez que esse discurso já se espalhava na Europa. Tratava-se de condenar a escravidão de forma geral, enquanto instituição injusta e, sobre este pretexto, o negro foi figurativizado no romantismo, tanto nas estrofes quanto na prosa, sobressaindo aí a grande inovação literária: a temática abolicionista na literatura brasileira.                                                                                               Essa prática que atravessou séculos e forçou diversos negros a sair de seus locais de origem para terem seus corpos escravizados caracterizou uma fase de sofrimento e perturbações aos mesmos. No entanto, a escravidão e suas atrocidades proporcionaram a indignação de autores nomeáveis de nossa literatura brasileira e revolucionou o período romântico dando vida ao romance de cunho social, não apenas no Brasil, pois na realidade movimentos abolicionistas aconteciam em várias partes do mundo advindo das ideias iluministas inspirados nos ideais da Revolução Francesa, como também o Romantismo europeu, que influenciou ainda mais os escritores em todo o mundo, inclusive os brasileiros da época.                                                                              O Romantismo retrata, de forma artística, a evolução existencial de uma nação e de conceitos relativos não só ao indivíduo, mas também uma análise dos diversos grupos e demonstra, esteticamente, a evolução do homem e da sociedade na qual está inserido, valendo-se como fundamento o contexto histórico e sócio-político. Todas as atitudes ideológicas no romantismo têm em comum a afirmação literária que busca uma identidade própria, sem moldes. Dentre os vários poetas, fases, e gerações encontra-se a ênfase voltada à autonomia nacional e seu prelúdio à liberdade enquanto nação e enquanto indivíduo. O negro, por sua vez, permeia esse espetáculo social e assemelha-se ao personagem principal de um período histórico de uma nação chamada Brasil.                  No século XVIII, a figura do negro na literatura foi escassa, houve um esquecimento das causas, pois eles apenas tinham expostas, na ficção, sua participação no trabalho dentro do campo e da cidade, não compondo grande influência nas obras.  “Alguns autores como José de Anchieta, Tomás Antônio Gonzaga entre outros citaram o negro em suas obras. ’’ (FRANÇA, 1998. p.151).                                                         Poetas, prosadores e jornalistas negros, ao publicarem seus escritos, assumiam uma grande causa, pois o fato de ser negro no século XIX era a mesma coisa que ser alguém à margem de uma sociedade, que escravizou e não deu opção a tantos. Nesta causa literária em busca da liberdade encontra-se Luís Gama, que foi transportado como escravo até a cidade do Rio de Janeiro. Em 1859, com o título de Primeiras Trovas Burlescas do Getulino, Gama reuniu poesias satíricas que ridicularizavam o sistema escravocrata e a elite da época.                                                                                      Além de Luís Gama, muitas outras figuras merecem referência neste estudo por terem construído a história dessa evolução brasileira, pessoas como Joaquim Nabuco vindo de família bem considerada socialmente, foi alfabetizado junto com os filhos dos escravos, escreveu poemas e foi um grande patriota. A escravidão sempre foi principal foco em suas obras; a primeira, chamada A escravidão, não teve sucesso; porém foi em 1883, quando publicou O Abolicionismo, durante o período em que esteve em Londres, que realmente ficou conhecido como escritor e que segundo ele em seu próprio livro afirma: 
Para nós, a raça negra é um elemento de considerável importância nacional, estreitamente ligada por infinitas relações orgânicas à nossa constituição, parte integrante do povo brasileiro. Por outro lado, a emancipação não significa tão somente a termo da injustiça de que o escravo é mártir, mas também a eliminação simultânea dos dois tipos contrários, e no fundo os mesmos: o escravo e o senhor. (NABUCO, 2000. p. 6)

            Joaquim Nabuco morreu em Washington, no ano de 1910, deixando seu ideal vivificado por muitos outros brasileiros.                                                                                               Participante também desta luta foi José do Patrocínio natural de Campos. Mestiço, formou-se aos 20 anos de idade, atuando principalmente como jornalista. Indignado com a escravidão, em 1881, fundou a Confederação Abolicionista e, em 1883, elaborou o Manifesto da Confederação Abolicionista, no qual exemplifica: “Ora é princípio jurídico que a prova incumbe vão contra a liberdade, porque a seu favor está a presunção pleníssima do Direito’’ (PATROCÍNIO, 1883. p. 9). Sua obra é bastante política e social, revelando a luta contra a escravidão no Brasil. Faleceu no Rio de Janeiro, em 30 de janeiro de 1905.                                                                                     Castro Alves e sua composição o Navio Negreiro escrito em 1868, foi um marco da poesia social romântica, época em que o tráfico de escravos já estava proibido no país, contudo os efeitos desumanos ainda persistiam, e o poeta valeu-se do drama vivido pelos negros para denunciar os sofrimentos assistidos na travessia da África ao Brasil pelos “proprietários”. E foi nesse período que o Romantismo compôs, através de sua oratória abolicionista, muitas obras literárias voltadas à cor local, traduzindo eventos em que a natureza humana do negro escravizado opunha-se ao branco. Como cantor dos escravos, Castro Alves mostrou um lado nada bom de nosso país, fator que até então era ignorado pela escola romântica, porém à construção de uma identidade nacional deve-se, sobretudo ao conhecimento verdadeiro de uma nação, de uma cultura, de um povo.                                                                                                            Nesta mesma linha de pensamento, Castro Alves, denuncia, em um tom glorioso e emotivo, a escravidão no Brasil, protagonizando o triste espetáculo reservado ao negro durante a escravidão:
Tinir de ferros... estalar de açoite... legiões de homens negros como a noite, horrendos a dançar... Negras mulheres, suspendendo às tetas magras crianças, cujas bocas pretas rega o sangue das mães (ALVES apud BOSI, 2010, p.78)

Toda essa construção poética permeada por sonoridade dantesca e óbvia denunciava a condição miserável dos escravos. Ressalva-se que nesta época o público leitor era constituído, em sua maioria por membros da elite econômica a qual também era proprietária dos escravos, a escolha lexical das palavras e a sonoridade que elas têm compõem uma canção nova na Literatura Brasileira. É necessário levar em conta que nesta época os escritores enfrentaram vários preconceitos por não esconderem as suas origens. Para esses, era vergonhoso e impossível não admitir ser quem eram, pois tanto o físico quanto a cultura eram aparentes.                                                                                  O papel do africano na formação de nossa sociedade serviu de base a vários estudiosos, antropólogos, historiadores, críticos, porém o poeta tratou de forma peculiar esta questão e à medida que o romantismo expressava os sentimentos dos descontentes e a desestruturação de um regime decaído, a literatura romântica crescia e, na intenção de denunciar as brutalidades que ocorriam em torno dos negros escravizados, aflorou um novo conceito literário romântico-social relativo e dedicado às questões que abordavam, de vários ângulos, a escravidão.                                                      De forma bruta e/ou melancólica a figura do negro, foi sendo introduzida às páginas dos folhetins que passavam pelas mãos dos leitores, os quais estranhavam o tom do poeta e a forma como discutiam certas questões que, com certeza, impulsionaram muitos a irem contra a escravidão, pois neste sentido pode-se dizer que a literatura romântica condiz com os ideais de liberdade e influenciou de forma direta sobre os valores sociais reservados ao povo.                                                                                               Nesse sentido, a literatura abolicionista do século XIX formulou e nos deixou o outro lado da história, recontando a verdadeira vida dos negros e suas lutas, tanto individuais quanto sociais, num Brasil ainda patriarcal que tentava burlar a lei que libertava os escravos, porém sobre esses escritos nos restou a confirmação da importante missão dos literatos desta época, que foi muito bem executada e servem de base a estudos atuais, como esse próprio, possibilitando também novas percepções e análises.

1.1.3.                 A figura do negro na literatura brasileira do séc. XIX

O movimento libertário abolicionista inspirou vários escritores brasileiros, porém atentaremos a dois em especial, que tornaram visíveis duas percepções do negro. O primeiro autor é Joaquim Manuel de Macedo, nascido em Itaboraí, no dia 24 de junho de 1820. Ingressou na vida literária com o clássico A Moreninha (1844), ganhou muito prestigio e é considerado o primeiro romance típico do Brasil, pois retrata costumes cariocas dos jovens burgueses.       De mesma autoria a obra que chama a atenção nesse estudo é As Vítimas Algozes que se opõe aos demais romances que abordam a questão da abolição dos escravos, uma vez que os escravos são figurados como seres realmente inferiores, capazes de corromper os bons costumes e os culpa de todo mal que ocorre com os brancos dentro da sociedade. No prólogo, explica:
Aos Nossos Leitores, não lhe interessou, nas educativas e moralizantes histórias que entregava aos consumidores de sua vasta obra, pintar o quadro do mal que o senhor, ainda sem querer, faz ao escravo, mas, sim, o quadro do mal que o escravo faz de assento propósito ou às vezes irrefletidamente ao senhor. (MACEDO, p. 17. 2010).

Para Macedo, o país produz negros oprimidos e rancorosos devido à escravidão, daí o título – Vítimas-Algozes. Desse modo, a escravidão deve ser banida pouco a pouco até a extinção de tudo sem causar dano algum. Para tanto, de forma contrária aos demais, Macedo usa algumas personagens como Lucinda, a fim de provar que negros escravos são incapazes de se tornar um bom ser humano debaixo de tanta aflição. Entre seus personagens estão a figura do negro feiticeiro, do moleque traiçoeiro, da escrava assassina, das negras que mantêm relações sexuais com seus patrões, da mucama ordinária, de outros negros que vadiam durante o dia e dos mulatos trambiqueiros. Com isso, Macedo configura suas intenções a fim de influenciar os proprietários a libertarem seus negros para seu próprio bem e de sua família. Portanto, a corrupção e a perversão associada ao negro são justificadas pelos castigos feitos aos mesmos pelos proprietários e por isso deve acabar.                                                      Outro romance que ganha destaque neste estudo foi escrito por Bernardo Guimarães, A Escrava Isaura, publicado em 1875, durante a campanha em prol da abolição. A pretensão do autor foi a de fazer uma documentação antiescravagista e pôr um fim na escravidão. Porém, o que causa um estranhamento é que sua escrava Isaura:
(...) é uma escrava branca, da cor do marfim, magra, estatura pequena, cabelos longas, muito bonita, pura, virginal, possuía um caráter nobre, inteligente, era dotada de natural bondade e muito singela de coração, além disso, sabia ler e escrever, falava italiano, francês e tocava piano. (...), porém ninguém diria que tinha nas veias uma só gota de sangue africano, vive o drama de ser submetida à bárbara e vergonhosa instituição. (GUIMARÃES, 2005, p. 12.).

O autor compara o racismo a um simples fato estético.  Através dessa estratégia insere também em sua obra o aculturamento das origens africanas inserindo a figura do negro de uma forma socialmente aceita, ou seja, embranquecendo-o. Isaura é branca, cristã, educada e rodeada por mimos, o que contraria a verdadeira imagem do negro na época. O autor de uma forma simples e fácil constrói intrigas a fim de atrair e prender o leitor até o desenrolar da trama, discutindo sutilmente a questão abolicionista para não chocar o público escravocrata do século XIX.        Contudo, percebe-se no desenrolar da trama que de certa forma o autor achava injusto a escravidão de uma moça “quase branca”, fina e bem educada como Isaura. Não há nessa obra uma representação real do negro, em suma é uma idealização da mulher escrava que em geral não era letrada, nem educada, pois não recebia esse tipo de tratamento a qual Isaura fora submetida.                    Ao publicarem essas obras, os autores estavam imersos nessa questão, apesar da figurativização do negro em cada um dos romances ser diferente, os dois autores estavam lutando pelo mesmo ideal através de uma arte: a Literatura em prol da abolição. No entanto, apesar de haver vários escritores abolicionistas no século XIX não significa que considerassem o negro realmente como igual ao branco; o preconceito e a desigualdade permaneciam, pois “seus personagens são falsos e artificiais; por exemplo, os negros, quando falam, não exprimem o que realmente sentiam e a maioria dos negros no Brasil, estavam sob algemas’’ (FONTANA,1972. p.82).                                                                                                                                      Contudo, o período romântico social e político de nossa literatura tornou-se um ponto de importantes discussões, referentes à questão humanitária, conhecida como abolição da escravatura e a liberdade dos oprimidos, dando início a um longo percurso literário social e libertário.


As mulheres não tinham participação na sociedade e quando não pelos seus donos, eram proibidas e coagidas por um sistema desigual, preconceituoso e egoísta, pois a escravidão do negro, por exemplo, perdurou por séculos, crimes que foram socialmente aceitos.  O trabalho escravo exercido pela mulher negra cresceu à medida que as necessidades dos brancos aumentaram, segundo Mott (1988), esse trabalho era subdivido em rurais e domésticos, pois as de melhor porte ficavam com o serviço caseiro como cozinhar, lavar, passar, engomar, enquanto as mais fortes e brutas permaneciam no campo de doze a quinze horas tratando de colher, semear etc. Havia também amas de leite que alimentavam as crianças de suas donas e escravas que as acompanhavam a todo lugar.                                                                                                                A mulher negra, no Brasil escravocrata, servia seus patrões em tudo e eram submetidas quase sempre a relações forçadas, e sua identidade foi caracterizada por violências sexuais. Por outro lado, sua participação na construção e formação dos quilombos foi algo muito relevante, pois elas, além de manterem a comunidade, preservaram sua cultura, cuidando dos negros fugitivos, dos combatentes feridos, além, é claro, de suas famílias. Suas principais rendas provinham do artesanato que era produzido nos quilombos e vendido nos centros das cidades, o que foi considerado a principal atividade econômica no quilombo dos Palmares. As mulheres muitas vezes entravam na batalha com armas improvisadas, por exemplo, água fervente que atingia os inimigos e os queimavam afastando-os.                                                                                             A fim de repensar algumas verdades inquestionáveis e contribuir à luta feminina, Maria Lúcia Mott em seu livro Submissão e Resistência: a mulher negra na luta contra a escravidão (1988) exemplifica que seu objetivo é “trazer ao primeiro plano a resistência e a luta das mulheres.(p.11). A partir de exemplos precisos e verídicos, Mott (1988), afirma que a resistência das mulheres foi a de sobressair-se apesar da submissão imposta desde os primórdios de nossa civilização. O primeiro capítulo do livro chama-se “tirando o véu”. A expressão tirando o véu é perfeita, já que mulheres negras como as que foram citadas anteriormente saíram debaixo da cortina espessa que as cobriam destacando-se e libertando-se. O padrão social no Brasil patriarcal sempre foi direcionado ao homem e nunca às mulheres, por isso a independência da mulher negra, ainda que apenas no quilombo, torna seu papel fundamental ao país e às origens africanas que se fincaram no Brasil. Em meio ao conflito entre escravidão e o início do capitalismo, as mulheres negras viviam dos trabalhos domésticos, e algumas não tinham interesse para a instrução. As diferenças educacionais voltadas às mulheres, principalmente mulheres negras, não existiam, pois apenas moças brancas tinha acesso à educação e isso em espaços que não eram oficiais, uma vez que, apenas homens tinha esse direito. As escravas aprendiam no labor diário, no modo de resistir perante tantas atrocidades, nas fugas das fazendas esperando por sua liberdade e, ainda quando a escravidão acabou, essas mulheres não conseguiam ter participação efetiva na sociedade, muito menos no mundo intelectual, salvo algumas negras que tiveram a sorte de ter uma criação diferenciada.                                             No final do século XIX, mudanças ideológicas, políticas, sociais e culturais surgiram e com elas muitas mulheres desejosas em adquirir sua posição na sociedade, tudo isso em um tempo em que o ensinar a ler e a escrever eram proibidos às mulheres segundo a lei.                                                                                                                                Para Mott (1988), essas mulheres não foram escolhidas aleatoriamente, pois sua intenção é a de gerar um profundo questionamento aos leitores enquanto percebem que estas mulheres não estão nos manuais que reproduzem a história oficial. De acordo com Mott (1988), foi caminhando vagarosamente, superando preconceitos e obstáculos que a mulher, apesar de ter sua imagem degredada tão fortemente propagada na sociedade, resistiu à submissão e atrelou ao caminho das artes técnicas, dos estudos etc., sobressaindo-se e autenticando-se pelo seu valor moral e social, ou seja, exercendo a igualdade entre os seres humanos de uma mesma sociedade.

1.2.1.                 Maria Firmina dos Reis: brasileira, negra e abolicionista

Contrárias à escravidão, escritoras usavam os seus escritos para denunciar o sistema escravocrata. Destaca-se entre elas Maria Firmina dos Reis, natural do Maranhão (1825 -1927), “uma maranhense”, como assinou sua primeira publicação do romance Úrsula, de 1859, até então é o primeiro escrito por uma mulher brasileira e de temática inovadora, pois tem como foco a mulher e o negro com suas aflições.              Úrsula foi publicado quando Firmina tinha 34 anos e se tornou uma das obras mais importantes da autora para a literatura brasileira, pois além desse escreveu o conto A escrava e alguns poemas.                                                                                              Com seu forte tema abolicionista, acontece, pela primeira vez, a reivindicação de alguém que verdadeiramente vive a realidade, levando-se em conta o fato de Firmina, a autora, ser uma afro-brasileira indignada com a sociedade em que estava inserida. Desse modo, há esta pauta em sua obra, que se confunde com a realidade da autora sofredora de algumas das mesmas restrições de seus personagens, servindo essa obra como crítica à sociedade patriarcal brasileira.                                                                                        A então menina bastarda e mestiça teve uma vida difícil, seu pai era negro e escravo e sua mãe filha de portugueses. Fora criada por sua tia materna, no município de Viamão, ela escreveu poesias, crônicas, ficção, charadas, lendas folclóricas, enigmas e também foi responsável pela composição de um hino para a abolição da escravatura. Foi professora, sendo que, aos vinte e dois anos de idade, venceu o concurso público como “cadeira de instrução primária”, na cidade de Guimarães no estado do Maranhão. Segundo o autor Nascimento Morais Filhos, um dos estudiosos das obras e vida de Maria Firmina, ao se aposentar a autora fundou, no ano de 1880, a primeira escola mista e gratuita do Estado. Uma mulher, mestiça, pobre, que não seguia a mesma linha de autores da época, não teria grande êxito numa sociedade aristocrata e patriarcal. Acarretando assim, sua obra ao esquecimento de muitos autores e críticos literários por muitos anos.                                                                                                               Em um momento em que a prosa de ficção estava dando seus primeiros passos no Brasil Firmina em 1859, publica Úrsula um romance romântico, muito parecido com o romance gótico inglês, que revela através de seus personagens uma questão social e muito sensível para aquela época: a escravidão. No enredo, temos Úrsula que é uma jovem que se apaixona por Tancredo, estudante de direito, homem íntegro e de valores. Um amor impossível por todas as circunstâncias que a narrativa apresenta. A traição, o engano e a mentira dão ao romance um ar de clássico.
Partindo de uma realidade que era sua, Firmina partilhou de seus anseios por um país livre e consciente dos valores cristãos que têm como prioridade e o amor ao próximo. Pouco se sabia sobre a autora negra, nordestina, pobre, bastarda, mulher, escritora, poeta e feminista, ainda assim, de forma louvável alcançou seu mérito estabelecendo-se com uma escritora inovadora considerada na literatura brasileira como um marco do romance social tendo seu núcleo temático na cultura afro-brasileira em plena campanha abolicionista no Brasil.                                                                                 Nessa época, negros escravos ou não aproveitaram o poder e influência que a literatura tomava no Brasil e partiram, como já se viu anteriormente, para a sociedade em busca da liberdade e igualdade, característica do sonho romântico e Firmina aborda esta questão. No prólogo de seu livro Úrsula, que é o atual objeto de estudo, Firmina diz:
Mesquinho e humilde é este que vos apresento leitor. Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de outros, e ainda assim o dou a lume. Não é a vaidade de adquirir nome que me cega, nem o amor próprio de autor. Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados. (REIS, 2004, p.13)


Por trás desta humildade apareceria uma importante obra em nossa literatura, no entanto, Firmina não teve a honra de ver seu romance reconhecido pelos críticos, pois na época de publicação não houve a percepção de quão grande e inovador era esta obra. Portanto, os méritos alcançados são concretamente merecidos a quem lutou pelos afro-brasileiros. Apenas em 1970, viria à tona novamente e revelada ao grande público. Esta redescoberta foi feita pelos estudiosos maranhenses Horácio de Almeida e José Nascimento Morais Filho, em 1975, permitindo que muitas pesquisas, inclusive essa, acontecessem. O sentimento de igualdade requerido é expresso pela exclamação de seus personagens, que não compreendem como o europeu conseguia tratar o africano de forma tão cruel, reduzindo-o a animal ou objeto de pouco valor. E sobre estes personagens haverá a análise sobre a figura do negro e a forma diferenciada que Firmina soube dar no romance, não deixando de lado a comparação da mulher que também é discutida nesta obra, extraviando-se daqueles folhetins reservados às mulheres da época. Úrsula é, incontestavelmente, uma obra abolicionista de caráter literário e romântico, portanto referência ao romance social do período romântico no Brasil, escrito por uma mulher negra no século XIX.








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O termo romantismo é originário da língua inglesa romantic proveniente do substantivo romaunt, de origem francesa [romanz ou romant], referindo-se aos romances medievais de aventura. Com o passar do tempo, esse adjetivo generalizou-se e designava qualquer tipo de romance.  Como movimento cultural surgiu na Alemanha, no final do século XVIII, mas só se definiu nos países latinos e americanos no século XIX. A publicação do romance Os sofrimentos do jovem Werther, do escritor alemão Johann Wolfgang Von Goethe, no ano de 1774, é considerado o marco inicial do romantismo na Europa. O autor, nessa obra, trabalha com o trágico, a dramaticidade, o egocentrismo, a idealização feminina e a subjetividade, temas abordados nesse período literário.                                                                                                                                         Na Inglaterra, o romantismo ocorreu nos primeiros anos do século XIX, nesse período, as poesias ultrarromânticas de Lord Byron (influência para grandes autores brasileiros) tinham como principais características o negativismo, egocentrismo, desilusão, individualismo e tédio. Na narrativa, destaca-se o Ivanhoé de Walter Scott (considerado o criador do romance histórico) regido pelo o espírito nacionalista pós-revolução francesa. A Alemanha e a Inglaterra foram os países pioneiros desse novo movimento cultural, entretanto foi a França que o divulgou. Obras como os Miseráveis (1862) de Victor Hugo e os Três Mosqueteiros (1844) de Alexandre Dumas são considerados grandes clássicos da literatura mundial.                                                                    A primeira obra é considerada de caráter social, pois o autor ressalta as injustiças e mazelas da sociedade da época, já a segunda publicação é baseada em fatos históricos do séc. VXII. Dumas mistura personagens reais e fictícias. Porém, a obra se destacou pelo lema dos quatro heróis: “Um por todos, e todos por um”. Em Portugal, o percursor do romantismo é o autor Almeida Garret com seu poema narrativo Camões (1825), uma homenagem ao poeta português Luís Vaz de Camões (1524-1580).                                                                                                                                              Nos Estados Unidos (EUA), temos a publicação da A Cabana do Pai Tomás (1852) da escritora e abolicionista norte americana Harriet Elizabeth Beecher Stowe. Esse romance foi um dos mais lidos e comentados em todo mundo e fonte de inspiração para diversos autores brasileiros como a escritora maranhense Maria Firmina dos Reis em seu romance Úrsula (1859), considerado o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, e também, o primeiro romance da literatura afro-brasileira. Entretanto, por ter sido escrito por uma mulher negra e que morava em local periférico o romance não obteve muito êxito em sua primeira publicação e é pouco conhecido entre o meio acadêmico.                                                                                                                         Em seu romance A cabana do Pai Tomás (1852), Stowe destaca a visão do senhorio quanto à abolição da escravatura, a narrativa é trabalhada sob a ótica da elite. Já em Úrsula (1859), Maria Firmina apresenta o negro sem nenhum tipo de preconceito ou estereotipo. Segundo o professor Eduardo de Assis Duarte, o romance “tematiza o assunto negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida politicamente em recuperar e narrar a condição do ser negro em nosso país” (2004, p. 91).

2.1.1.                 Características Românticas

O escritor romântico cultua o individualismo valorizando os sentimentos e as emoções pessoais. O subjetivismo é pregado pelo homem romântico, na busca pelo “EU” interior. Temas como melancolia, desespero, escapismo, angústia são recorrentes desse período. A liberdade de criação, versificação mais variada, nacionalismo, historicismo, medievalismo, tradições populares, o folclore e a crítica social também são características dos autores do período romântico. Segundo HIBBARD, o Romantismo:
(...) é o mundo visto através da personalidade do artista. (…) é subjetivismo, é a libertação do mundo interior, do inconsciente; é o primado exuberante da emoção, imaginação, intuição, liberdade pessoal e interior. Romantismo é liberdade do indivíduo.                    (HIBBARD apud COUTINHO, 1976, p. 145)    
   Para o romântico, a arte está ligada aos sentimentos e só pode ser expressa pela emoção e pela espontaneidade. Com isso, esses artistas viviam em busca de aventuras, emoções e motivados por essa procura alguns deles recorriam ao alcoolismo, às drogas e à vida boêmia. O subjetivismo é uma das principais características e no qual o autor romântico trata as suas temáticas de forma pessoal segundo a ótica e os sentimentos do artista. O individualismo prevalece. Nesse período também é visto a idealização dos fatos, os autores tendem a criar e fantasiar um mundo perfeito e idealizar tudo o que estar a sua volta. Como exemplos, temos a ideia de que a nação é perfeita, a mulher sempre sensível, bela submissa e frágil.                                          O sentimentalismo, a tristeza, melancolia, desilusão, saudade [saudosismo] são temas característicos nas obras desse movimento. A liberdade de criação começa a se tornar recorrente e os modelos clássicos são abandonados, o pessimismo também conhecido como o mal do século, morte, insatisfação pessoal, angústia por existir e a melancolia é apresentada por meio das diversas obras artísticas produzidas nesse período entre os romancistas.                                                                                                           Com tanta angústia em sua volta o romântico tende a fugir dos problemas por isso temas referentes ao escapismo e a fuga é abordada pelos românticos. Nesse contexto, o artista cria ambientes perfeitos para fugir da realidade, criando universos imaginários e, muitas vezes, recorrem à ajuda divina. Com a busca da identidade nacional, os autores desse período prezam pelo nacionalismo, cultuando o popular e os elementos patriarcais, desse modo exaltando e louvando a pátria. No que condiz ao aspecto formal, a literatura romântica rompe com os padrões e as normas estéticas do classicismo. Os versos tornaram-se mais livres, sem metrificação ou rimas. Em suma, o romântico tinha liberdade de criação sem estar preso a modelos ou regras.
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2.1.2.                 Romantismo em outras artes

O romantismo não foi um movimento restrito só a literatura, influenciou também a música, a pintura, arquitetura, o teatro, e variados tipos de artes. Na música, destacam-se artista como Weber, Schubert, Schumann, Beethoven, Berlioz e Chopin. Como no romantismo na literatura o artista desse período buscava romper o clássico desligando-se da arte do passado, alguns desses compositores inspiravam-se em livros, quadros, esculturas, pois esses musicistas na maioria dos casos interessavam-se por vários tipos de artes. O autor que mais se destaca nesse momento é o alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827), nas suas composições o pessoal e o EU são profundamente trabalhados.                                                                                                                                           Nesse período, difundiu-se o que chamamos de música descritiva na qual a melodia é representada por uma cena, quando o ouvinte a escuta logo a associa a uma imagem. Já na pintura, destacam-se nomes como Delacroix, Gericault, Goya; os artistas desse movimento utilizavam em suas obras cores fortes criando uma impressão de realidade aos quadros, deixando-os mais dramáticos e verossímeis. Na arquitetura, novos materiais começaram a aparecer e foram bastante utilizados pelos artistas como o aço e o ferro.                                                                                                                                  No Romantismo, os artistas aboliram os modelos neoclássicos e começaram a mesclar estilos como o gótico, o bizantino e o chinês, criando uma arquitetura exótica. Artistas como Barry, Puguin, e Waesemann, podem ser lembrados nesse período. Já no teatro, no ano de 1827, Victor Hugo no prefácio de sua obra Cromwell, discute sobre a liberdade teatral.

Se tivéssemos o direito de dizer qual poderia ser, em nosso gosto, o estilo do drama, quereríamos um verso livre, franco, leal, que ousasse tudo dizer sem hipocrisia, tudo exprimir sem rebuscamento e passasse com um movimento natural da comedia á tragédia, do sublime ao grotesco; alternadamente positivo e poético, ao mesmo tempo artístico e inspirado, profundo e repentino, amplo e verdadeiro. (HUGO, 2002, p. 77)

O autor defendia um teatro renovado, sem regras fixas, desprendido dos modelos antigos e ultrapassados, rompendo com as três unidades do teatro clássico (tempo, espaço, ação). Segundo Hugo, o drama seria o novo tipo de poesia.  Esse novo tipo de teatro se manifesta valorizando a religiosidade, o individualismo, a subjetividade, o cotidiano, denunciando desse modo os problemas sociais, humanos e morais da época.  Nomes como Goethe, Friedrich von Schiller, Victor Hugo e Almeida Garret devem ser lembrados. Diante desses dados é vago e limitado classificar o Romantismo somente como uma escola literária ou simplesmente como um movimento cultural conforme para Gonzague de Reynold:
O Romantismo é um movimento muito mais vasto que uma simples revolução literária. Ele engloba as escolas românticas, mas as ultrapassa amplamente. Estende-se muito além, em todos os domínios. Não há, pois, somente, um romantismo poético, literário, há um romantismo político, social, religioso. Encontra-se o Romantismo até nas ciências e até na vida econômica. Encontra-se na Metafísica assim como na Psicologia. O Romantismo vai da arte à história. A tudo envolve, a tudo impregna, como uma atmosfera (REYNOLD apud GUINSBURG, 1985, p.115)

O romantismo foi um movimento artístico de grande valia para o mundo já que foi nesse momento que o homem passou a ser visto como um ser que é repleto de sentimentos, não é somente racional, mas possui emoções, sonhos, desejos, paixões. No romantismo, o homem é o conjunto da razão e da emoção com isso tornando-se completo encontrando seu verdadeiro “EU” interior.



O Romantismo foi influenciado pela teoria do “bom selvagem” do filosofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), pelo lema da revolução francesa (liberté, igualité, fraternité) e pela revolução industrial, sendo assim, foi uma reação contra o iluminismo e ao classicismo. Contrapondo essas tendências para os românticos o homem não era somente um ser racional ele tinha sentimentos e emoções, o irracional nesse período é exaltado. Em Discourssurl’origine de l’inégalité [Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens.], Rousseau prega que o homem nasce bom, puro e sem macula, mas os ideais da sociedade e como ela está estruturada desintegram e desestruturam-no moralmente.                                                                                               O filósofo acredita que a natureza prover ao homem tudo que ele necessita e precisa para sobreviver, porém quando um indivíduo começa a acumular bens e riquezas o que dantes era puro torna-se corrompido assim originando a desigualdade social. “A vida em sociedade, e a desigualdade produzida por ela, é que muda e altera todas as inclinações naturais dos homens.” (GONCALVES, 2007.).                                             Rousseau inicia seu discurso lembrando que há dois tipos de desigualdade: a física (idade\ sexo\ saúde) e a moral ou política. A primeira desigualdade não era objeto de estudo do filosofo (por se de origem natural), entretanto a segunda (moral) era a que mais o interessava. A desigualdade física é concebida pela natureza, e não pode ser mudada, pois já está na essência do indivíduo, já a segunda é concebida pela vontade humana sendo baseada na necessidade de sermos melhores e superarmos o outro. Assim alguns indivíduos têm mais privilégios que os outros prejudicando os que são mais fracos ou são desiguais fisicamente, por isso para Rousseau uma desigualdade está diretamente ligada à outra. O homem que é mais forte e sempre estará acima do que é mais fraco. Diante de tal conclusão o filosofo propunha que para o indivíduo encontrar esse homem bom e inocente deveria “mergulhar” em seu interior à procura da essência desse indivíduo puro e sem macula que é autossuficiente com tudo o que a natureza lhe prover e não necessita de bens sociais.

2.2.2.                 Contexto político-social

           Como o mito de Rousseau a Revolução Francesa também influenciou o Romantismo. Essa revolução foi iniciada por vários motivos: crise social, financeira, política e de abastecimento (fome de 1788) alterando o quadro político, social e cultural francês.  A França em meados de 1780 era o segundo país mais populoso da Europa (perdendo apenas para a Rússia) com aproximadamente 25 milhões de habitantes. A sociedade Francesa era dividida em três estados: clero, nobreza (de sangue ou pela compra de títulos) e por último os burgueses e as camadas mais populares.                           O clero e a nobreza eram os mais privilegiados, pois a igreja era isenta de impostos e ainda tinha o direito de cobrar os dízimos aos seus seguidores. Já os gastos e extravagâncias da nobreza eram bancados pelo rei e pertencia ao terceiro estado a responsabilidade de pagar os impostos, assim sustentando o primeiro e o segundo estado.                                                                                                                             Porém no século XVIII essa divisão social entrou em crise, já que o grupo que era responsável pela economia francesa (terceiro estado) e arcava com todos os gastos do primeiro e segundo estado estava em um lugar desprivilegiado impedindo o crescimento e desenvolvimento do país. Por isso, para que o progresso continuasse era necessário que o terceiro estado participasse do governo.                                                               Já no final do século XVIII a Franca enfrentou uma grande crise econômica por causa de safras ruins trazendo como consequência o aumento dos preços dos alimentos, uma grande fome e a diminuição na arrecadação de imposto.                                        Com o passar do tempo influenciado pelas ideias iluministas o terceiro estado começou a se revoltar e lutar pelos ideais de liberdade, igualdade, queda do absolutismo e dos privilégios do clero e da nobreza. Diante de tal situação houve a queda da monarquia e a ascensão da burguesia. Esse novo modelo de sociedade e estado influenciou e inspirou parte do mundo e outros movimentos revolucionários. Nesse processo revolucionário é inevitável citar a grande participação das mulheres na luta pela queda do absolutismo e pelos seus direitos de igualdade, algumas delas chegaram a lutar com vestimentas masculinas por causa do preconceito. Não se sabe quantas mulheres lutaram na revolução, entretanto algumas gravuras exemplificam tal ação. Como exemplo, podemos destacar o quadro La Libertéguidantlepeuplede DelacroixEugène, em que se observa uma mulher com os seios levemente à mostra segurando uma arma e a bandeira da França.                                                          Conforme Michelet “As mulheres estiveram na vanguarda da revolução. Não é de se admirar: elas sofriam mais” (MICHELET apud BEKMAN,1885, p. 254). Foi na revolução Francesa que as mulheres começaram a lutar pelos seus direitos tanto que segundo Secco (2004) “a Revolução Francesa foi a primeira forma de participação política e coletiva feminina. Mesmo assim, a Declaração do Direitos do Homem e do Cidadão não deu nenhum direito às mulheres.”  A escritora Olympe de Gouges (pseudônimo de Marie Gouze) não contente com a situação em 1971 redigiu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã que não foi visto com bons olhos pela sociedade machista da época.                                                                                                                Dessa forma o romantismo está ligado ao espirito e ao lema da revolução francesa: liberté, igualité, fraternité, onde os indivíduos reivindicavam a igualdade de seus direitos como cidadãos desse modo inspirando os ideais de liberdade de expressão e criação propagada pelos românticos. No que diz respeito a relação da Revolução Francesa e o Romantismo Hauser afirma que:
A Revolução [Francesa] e o movimento romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirigia a uma “sociedade”, a um grupo mais ou menos homogêneo, a um público cuja autoridade, em princípio, reconhecia absolutamente. A arte deixa, porém, agora, de ser uma atividade social orientada por critérios objetivos e convencionais, e transforma-se numa forma de auto expressão que cria os seus próprios padrões; numa palavra: torna-se o meio empregado pelo indivíduo singular para se comunicar com indivíduos singulares. (HAUSER, 1972, p. 144)
             Em suma, a revolução Francesa foi um dos mais importantes processos revolucionários da história moderna. Onde houve a alteração política, econômica e social em toda Europa, influenciando vários processos de independência. No que tange a condição da mulher foi no século dessa revolução que surgiu o movimento feminista que se expandiu alcançando êxito no século XX. As mulheres dessa época também adquiriram os direitos sobre o estado civil e o divórcio e se instituiu os mesmos direitos de autoridade familiar tanto para o pai quanto para a mãe.



             Outro processo revolucionário que influenciou o Romantismo foi a revolução industrial que segundo o historiador Eric Hobsbawn:
Transformou a vida dos homens além do que se podia perceber. Ou, sendo ainda mais preciso, em seus estágios iniciais, destruiu o antigo modo de vida, deixando-os livres para descobrirem ou fazerem, para eles próprios, outros caminhos, se pudessem e soubessem como”.( HOBSBAWN apud, COSTA 1969, p. 80 )
               A Inglaterra foi dona de um dos maiores impérios colonial nos séculos XVII e XVIII iniciando sua industrialização já no século XVIII. Com tal desenvolvimento e progresso a partir de 1770, a Inglaterra passou por uma revolução produtiva que ficou conhecida como Revolução Industrial, chegando aos outros países da Europa, Ásia e América a parti do século XIX. Antes desse processo revolucionário a produção era totalmente manual, mas com o invento da bomba hidráulica (1763), do tear hidráulico (1768), a locomotiva a vapor (1770) e o barco a vapor (1838), o trabalho brutal foi substituído pela máquina, assim aumentando a produção industrial trazendo um processo de transformação social e tecnológico.                                                                  Apesar de a revolução trazer dinheiro e riquezas aos burgueses os trabalhadores e as camadas mais populares viviam em estado de miséria e em condições sub-humanas. Mulheres, homens e até as crianças trabalhavam até 16 horas por dia em troca de salários baixos. Diante dessa situação, a classe operaria viu que era necessário que lutasse por seus direitos. Alguns desses operários como forma de reivindicação destruíam e quebravam as maquinas ao invadirem algumas fábricas. No ano de 1830, alguns trabalhadores criaram um movimento que exigiam o poder de voto masculino, entretanto, somente em 1867 esses direito foi conquistado. Ao passar dos anos as lutas das classes operárias surtiram efeito e as leis trabalhistas e os sindicatos foram criados com o intuito de melhorar as condições de trabalho. A luta desses operários serviu de exemplo e influenciou os trabalhadores de diversos países que estavam engajados na luta pelo mesmo ideal. É de suma importância para a referida analise ressaltar a importância da mulher nessa sociedade já que o presente tema é o assunto central dessa pesquisa. As mulheres do Século XVIII eram obrigadas a trabalhar mais de 12 horas por dia sendo humilhadas e muitas vezes sofrendo abusos e assédios sexuais. Entretanto, é com a Revolução industrial que as mulheres começaram a reivindicar os seus direitos de igualdade entre o sexo e melhores condições de trabalho. Com isso no dia 08 de marco de 1857, cerca de cento e trinta operarias de uma fábrica de tecido, situada em Nova York, aderiram a uma greve para reivindicar a diminuição da jornada de trabalho de dezesseis para dez horas, igualar o salário feminino com o masculino (os homens recebiam cerca de 60% a mais que a mulher para realizar a mesma função) e melhores condições de trabalho.          Descontente com esse protesto a polícia reagiu com violência e as operárias foram se abrigar dentro da fábrica onde trabalhavam e para puni-las os policiais as trancaram e atearam fogo no local matando todas elas. Com isso, em 1910 uma conferência na Dinamarca elegeu o dia 8 de março como o "Dia Internacional da Mulher", homenageando as tecelãs que morreram queimadas em Nova Iorque. Contudo, somente em 1975 a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou a data. Alguns estudiosos dividem esse processo revolucionário em três etapas: de 1760 a 1850 a revolução industrial que ocorreu na Inglaterra que substituiu o trabalho manual pelas máquinas revolucionado a sociedade Inglesa. De 1850 a 1900 a industrialização se espalha pelos países Europeus, Asiáticos e Americanos, e por último de 1900 até a contemporaneidade onde temos a criação das multinacionais, indústrias automotivas, o crescimento e o grande poder de influência dos meios de comunicação, assim gerando uma sociedade consumista e preocupada com os avanços tecnológicos.                                                                                                                                                     A Revolução Industrial facilitou, modernizou e tornou os métodos de produção mais eficientes. A produção em massa barateou os produtos e incentivou o consumo. Entretanto, podemos citar vários pontos negativos como o desemprego, a poluição ambiental e o êxodo rural que trouxe como consequência o aumento desenfreado das cidades nos grandes centros urbanos.



A chegada da Família Real Portuguesa no Brasil em 1808 no Rio de Janeiro fez com que um processo diferente acontecesse: houve a necessidade de bibliotecas, tipografias, impressão dos primeiros livros no Brasil, abriram-se cursos e fundaram-se escolas superiores. Com toda a corte instalada no Brasil, e tornando o país sede da Monarquia, começa de forma vagarosa o processo de desligamento de Portugal, tornando-se mais efetivo em 1821 com a volta do Rei para Lisboa, deixando o seu filho mais velho como herdeiro do trono. Pedro fora pressionado pelos manifestos a declarar independência e acaba por se tornar o Imperador da nova ex-colônia, mantendo com as classes dominantes acordos como, por exemplo, a escravidão dos negros que só será abolida muitos anos depois, em 1888.                                                                                        Em 1816, vem para o Brasil uma missão artística contratada na França, e acaba inaugurando a Academia de Belas Artes, rompendo a tradição local de fundo barroco, e substituindo pelo neoclassicismo. Resultando em trazer para essa sociedade pensamentos e fundamentos modernos de liberdade de comercio e de pensamento, representação social, instrução e fim do regime escravocrata. Pode se destacar homens como o jornalista Hipólito da Costa (1774-1823), que publica no Correio Brasiliense (1808-1822) análises políticas, pensamentos modernos, dando ênfase ao pensamento liberal. José Bonifácio de Andrade e Silva também tem seu papel fundamental nesse período histórico e social vivido no Brasil, fora um ministro influente, porém mais tarde seria exilado para a França; também assumiu posições liberais e abolicionistas.   Autores como Antônio Pereira de Souza Caldas (1762-1814), Frei Francisco de São Carlos dão sua contribuição no que se diz respeito à religião e ao patriotismo que seria relevante ao romantismo. A pintura do Padre Jesuíno do Monte Carmelo com seus anjos mulatos desenhados em seus painéis. Na poesia, Domingos Borges de barros (1779-1855) apresenta versos melancólicos e sentimentos pela natureza.                         Há também frei Francisco do Monte Alverne (1784-1857) que influencia a primeira geração romântica. Entre os anos de 1820 e 1830 um desejo de autonomia literária influenciado pelas mudanças políticas e sociais no país, fazia florescer o Romantismo como forma e estética a serem propagadas naquele momento no país.            Afirmando o particularismo, a oposição aos centros urbanos, ligada assim a identidade clássica, surgia o Romantismo, com a ideia de produção brasileira com características próprias. Seguindo as ideias do francês Ferandi Denis (1798-1890) que publica uma teoria até então única, que todos os países devem ter sua literatura peculiar, relacionando as suas naturezas e determinadas sociedades em suas obras. É apresentada a importância do índio e se torna de fundamental importância com outros franceses na concepção da ideia do nacional e mais legítimo. Surgiram pessoas que tiveram receio dessa nova estética que surgia, no entanto que um grupo de jovens estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo promovem em 1833 através da Revista da Sociedade Filomática a repulsa pelo romantismo, assim como Januário da Cunha Barbosa que público o Parnaso Brasileiro, reunindo diversos poemas ainda de concepção clássica.


No ano de 1836 é publicado Suspiros poéticos e Saudades de Domingos Gonçalves de Magalhães, considerado por muitos estudiosos como o marco iniciador da literatura romântica Brasileira. Na segunda e última edição da revista Niterói, Manuel de Araujo Porto-Alegre (1806-1879) que conviveu com Almeida Garret, já exilado e que recebia das mesmas informações renovadoras, publica o poema Contornos de Nápoles. O romance começa por volta de 1830 através das traduções que chegam ao Brasil, do tipo folhetinesco, com episódios melodramáticos. Considerado o primeiro romancista Antônio Gonçalves Teixeira e Souza, publica em 1843 O filho do pescador e mais seis romances até o ano de 1856. Suas obras tratavam de aventuras e mistérios, não alcançando grande êxito sendo esquecidos e somente dois tendo segunda edição até a atualidade. Porém o encanto dos brasileiros foi com os romances de costumes, aqueles que falavam da sociedade, da natureza e o modo de vida da sociedade carioca.                                                                                                                                   Nesse momento surge a obra de Joaquim Manoel de Macedo, A Moreninha (1844) sendo perpetuado até os dias atuais, através dos milhares reedições.  Em geral as obras de Macedo exprimem uma estética bem romanesca, mistura de realismo com espontâneo. Há também Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) que foi o principal poeta romântico, sendo temático de suas poesias o índio. Pedro I abdicou do seu trono, e fora viver em Portugal, deixando seu filho de cinco anos como sucessor, porém só com quinze anos é declarado maior e podendo exercer como imperador.                                   No ano de 1850 é extinta o tráfico de escravos, esse mesmo ano é considerado pela literatura a consagração do Romantismo com nacionalismo expresso através do indianismo, sendo José de Alencar o principal da prosa a apresentar essa característica com o romance O Guarani (1857), que fora um dos livros mais lidos pelos brasileiros, e também foi usado pelo músico Antônio Carlos Gomes (1836-1896) como tema do livreto de sua obra.             Críticos e autores começam a perceber a necessidade da abordagem dos sertanejos, assim como os europeus com seus pastores de bucólicas, o negro também seria parte dessa identidade nacional, por isso mais tarde nos anos de 1860 a 1870 nasce uma literatura mais voltada ao regionalismo e o interesse pelo negro.         Considerada a literatura da mocidade, o ultrarromantismo surge aproximadamente em 1850, levando da melancolia ao desespero, e sentimentalismo ao masoquismo. Ironia, sarcasmo, toques de satanismo, o absurdo e obscenidade, eram os temas que envolviam suas poesias, porém é visto o momento de progressão no que tange a musicalidade no verso, os temas, pouco interesse pelo patriotismo e indianismo, continua o sentimento pela natureza e surge o desejo, sobretudo pela morte.                                                                                                                                                     Nesse processo temos em 1830 os estudantes do curso de Direito de São Paulo, que dava ao Romantismo características como rebeldia, sofrimento e mal do século. Era na Revista do Ensaio Filosófico Paulistano (1850-1864) e Ensaios Literários do Ateneu Paulistano (1852-1860) que a mocidade daquela época, expressava seus ideais e difundia o movimento romântico. Há um autor muito importante nesse momento, Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), que não terminou seu curso de direito, mas deixara uma obra extensa, com contos, rascunhos, fragmentos entre outras tantas coisas produzida pelo mesmo, com influencias de Shakespeare, Lord Byron, Hoffmann, Heine e Musset. Foi satírico ao tratar de questões como o indianismo e a independência literária brasileira. O autor Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1827-1884) colega e companheiro de Álvares de Azevedo escreveram poesias do estilo grotesco e obscena, fazendo importante também na prosa de estilo regional, como na obra A Escrava Isaura (1875) que trata de uma forma simples a questão abolicionista e a mistura das etnias e os resultados da mesma na sociedade brasileira. Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), fora publicado entre os anos de 1852 a 1853 em folhetins, e é até hoje um dos livros mais lidos, na época porém fora passado desapercebido pelo público leitor.                                               Uma obra com ar realista retratava o pitoresco e o cotidiano da vida popular no Rio de Janeiro. A diferença está em não respeitar a divisão do bem e o mal, isso que ia contra a literatura predominante da época. O principal autor de romances sem dúvida é o escritor José Martiniano de Alencar (1829-1877), responsável por vinte romances publicados entre os anos de 1856 e 1877, suas obras são diferenciadas, pois abordam costumes urbanos, regiões, e o índio. Com isso, apresentou a brasilidade através da literatura e da linguagem.                                                                                                     Romances com donzelas e rapazes ambos idealizados, fazem parte das obras literárias, e outras com teor realista, com complexidade humana, revelando a identidade da sociedade daquela época.                                                                                                                 O espetáculo de um Brasil plasticamente belo enobrecido pelas qualidades do índio, e em Iracema (1865) a narrativa lírica dos amores de um português e uma índia, seu êxito está presente até os dias de hoje. Ele também está presente nos romances históricos em As minas de Prata (1859-1865), O Sertanejo (1875) entre outros. Com a guerra do Paraguai e em, 1889 com o fim da Monarquia, houve mudanças no país, sendo que o jornalismo ganha mais força, as escolas de ensino superior são reorganizadas, a impressão escrita em geral começa a ganhar uma atenção maior.                No ano de 1870, Alfredo D’escragnolle Taunay (1843-1899), brasileiro e filho de estrangeiros, é, portanto a prova da miscigenação de etnias que acontecia no Brasil, foi autor de obras como Retirada da Laguna (1871), Memórias (1848), Ouro sobre azul (1874), Mocidade de Trajano (1871) e a de mais êxito Inocência (1872), já João Franklin da Silveira Távora (1842-1888), marcou suas obras com dramas de qualidade inferior, com um toque de melo dramaticidade, porém considerado fundador do regionalismo no Nordeste, autor de obras como: O Cabeleireira, O Matuto, Lourenço, O Sacrifício e O Casamento no Arrabalde.                                                                                        Em síntese, foi através do romance romântico que a nossa literatura tornou-se por fim aberta, ou seja, coexistindo em um mesmo âmbito o autor e o leitor, uma interação que serviu de impulso para sobrevivência da novelística romântica, pois o romance, à medida que ia evoluindo quanto escola, criava também mecanismos poderosos dentre os cidadãos e as normas sociais.                                                                    Demostrando a difícil situação dos injustiçados, em histórias convidativas em que os leitores, através da identificação, começavam a enxergar situações que se tornavam já intoleráveis. Por isso as narrativas também introduzem um molde a crítica social expondo o vago sucesso mundano, o ato corruptível do mundo, suas fraquezas e a não satisfação de nossos mais nobres desejos, capaz de tornar real, em sua interpretação o romance romântico brasileiro. Por isso esse estilo literário demonstra, através de seu formato estético, a evolução do homem e da sociedade na qual estava inserido, valendo-se como fundamento o contexto histórico- político- social.















A palavra na análise vem do grego analyein e significa desligar, dissolver, separar, decompor, ou seja, é a dissociação do texto e seus valores filosóficos, psicológicos, sociais e históricos. Sendo necessário examinar a obra em todos seus aspectos para que haja sucesso na referida analise. Para tal o analista deve conhecer seu objeto de estudo de uma forma profunda, descobrindo suas estruturas, extraindo seus princípios de criação estética e não menos importante estudar a biografia do autor, o contexto histórico, político e filosófico da obra. Para a análise literária é uma importante fonte histórica, social e psicológica, pois é a partir dela que conhecemos o contexto em que a obra está inserida.                                                                                                             Segundo o autor “são documentos indiretos, nos quais a experiência surge filtrada pela imaginação, mas que documentos melhores que os artísticos para reconstruir, por dentro, uma época ou temperamento?”. (MASSAUD, 2002, p. 19). O romance ganha sentido quando analisado, quem sabe num segundo plano, com uma leitura mais aprofundada, sendo desmistificada em alguns aspectos, tendo o seu lado denotativo mais perceptível em comparação a poesia. É visto de forma clara que os romances são em geral univalentes, porém podendo acontecer de serem polivalentes de acordo com as “ilhas” poéticas encontradas no texto recebendo assim um valor conotativo com uma linguagem mais metafórica. As obras mais importantes da nossa literatura conseguem preencher esses dois aspectos de forma igualitária, dando equilíbrio a obra.                                                                                                                             Para análise efetiva do romance é mister um tempo maior de estudo sobre o mesmo, enquanto numa poesia a analise pode ser feita em questão de horas. De acordo com MOISÉS (2002, p.86) na análise de um romance há dois níveis de estudo que conhecemos por microanálise ou microscópica que visa analisar a microestrutura abordando o texto em um sentido mais especifico e minucioso e subdividido em uma análise que se contenta com o pormenor, esquecendo quase que sempre do conjunto da obra e uma análise mais particularizada, com partes determinadas pelos personagens, o tempo, o lugar, a ação, o ponto de vista narrativo, o diálogo, a narração, a dissertação, para isso é necessário a análise dos acontecimentos capítulo por capítulo de forma ascendente.                                                                                                           A microanálise ou macroscópica que por sua vez visa a análise da macroestrutura apresenta o que está presente dentro da microanálise, as esferas dos conceitos e sentimentos, é o que o leitor pode supostamente imaginar através das lacunas deixadas pelo autor. A microestrutura é composta de signos ou de símbolos e a macroestrutura são as esferas de realidade significadas ou simbolizadas o que corresponde a teoria de Saussere: Significado e Significante.

1.1. 


Segundo Moisés (2002) para o leitor ser levado a uma microanálise, é de suma importância entender a ação que ocorre a obra, ou seja, os gestos e atos que compõem um enredo. Divide-se em externar e internar as ações, sendo elas acontecidas na primeira por meio de uma viagem, deslocamento de um cômodo para o outro. No segundo, os acontecimentos são internos, passa-se na consciência ou/ e na subconsciência da personagem, entretanto não se pode afirmar o externo eliminado o interno e vice- versa e sim, ambos se comunicando, podendo um prevalecer sobre o outro ou não dependendo da obra. Há a necessidade de que a obra seja parecida com a vida real, uma coerência relativa, semelhante ao que nos acontece diariamente, para que o leitor se identifique gerando a catarse.                                                                                    É importante destacar alguns ingredientes que compõe a ação e são eles o volume, a quantidade e a frequência, sendo a intensidade e a densidade uma forma de balancear e saber como medir cada item desses citados anteriormente, e assim saber o desenvolver da história e vagareza com que o texto toma. A intensidade por sua vez tem como sinônimo a velocidade, volume e frequência da ação, presente, sobretudo na ficção extrospectiva, pode-se citar como referência as novelas e o romance linear, pois os mesmos se identificam com ações mais intensas e tensas, porém pouco profundas e densas, como ocorre no romance e no conto.                                                                                       A densidade raramente observa-se em um conto, entretanto esta não está em complexa extinção no mesmo, apesar de ser algo mais dinâmico, que exija tanto do autor como do leitor uma maior rapidez.

Dentro do que se entende como tempo, existem três tipos, são eles: o cronológico ou histórico que segue a linha do tempo normal, a que conhecemos como naturais sendo mais presentes nos contos e novelas; o psicológico que vai de acordo com o interior das personagens sem um começo, meio ou fim; e o metafísico ou mítico é feito por meio de arquétipos, transindividual e encontrado geralmente em romances principalmente nos introspectivos. Em síntese segundo Moises “a noção de tempo implica a de espaço e vice e versa todo espaço se vincula ao tempo que nele transcorre”.


Cabe na análise do espaço, entender como aparece o cenário, seja ele um campo ou uma cidade e que funções desempenham no evolver da ação, sendo até mesmo considerada a paisagem como uma espécie de ligação, ou melhor, de projeção das personagens no romance psicológico. O objeto também tem sua importância numa obra, podendo por meio da sua descrição ganhar fala e características próprias e ajudar a solucionar certas questões envolvidas numa obra. No romance linear, não há uma ligação com a personagem, o ambiente geralmente é estático, inanimado e opaco, entretanto quando descrito em um cenário, é importante leva-lo em consideração na análise pois dependendo da obra pode ser justificada a sua presença. Na novela o ambiente é irrelevante, indiferente, cheio de convencionalismo por seu idealismo exacerbado fugindo por muitas vezes da realidade. Em suma, a narrativa apresenta-se de marcos geográficos, o romancista por sua vez, procura levantar o mapa da situação com todos os pormenores, aos mínimos detalhes, indispensáveis para trazer à compreensão dos protagonistas em cena, sua ideia principal.


As personagens independentemente da importância que assumem no conjunto da história são verossímeis a imagens e semelhança dos seres humanos, e por isso a reconstituição da natureza ou do espaço onde a história transcorre são essenciais como também é de fundamental importância em que haja em um romance um enredo suficiente rico, forte e convincente. Por isso segundo SALCES: “Tudo deve ser verossímil, isto é, estar ajustado á plausibilidade dos eventos que desenrolam no mundo imaginário dos personagens e das situações criadas, gerando assim a verossimilhança do todo” (2005, p. 95).                                                                                               A narrativa deve ser, além de verossimilhante, conter uma lógica interna, uma coerência para que haja a interação autor-leitor, fazendo com que o espectador descubra nas lacunas deixadas pelo autor o foco da obra. As personagens podem ser divididas em dois grupos: personagens redondos que geralmente são profundos, com diversas qualidades ou defeitos, geram tipos e caricaturas, uma identidade própria com mais frequência em romances psicológicos e introspectivos. As personagens são planas, geralmente também são básicos, simples, sem muita densidade na obra, por não terem muita profundidade, envolvem caracteres, presentes nos contos, nas novelas e romances lineares.                                                                                                                      As personagens podem ser analisadas de duas formas, estaticamente e dinamicamente. A personagem plana pode ser analisada por ambos, se aplica também nas personagens redondas. A primeira forma diz respeito a descrição das personagens, captando a imagem de um determinado personagem no decorrer da obra por diversos momentos que o mesmo vive. A personagem dinâmica ocupa-se da continuidade tantos com personagens redondos como planos, no primeiro as personagens estão reiteradas de um defeito ou qualidade, no segundo, há uma surpresa ou a personagem é revelada, de uma forma inesperada.

Entender quem narra a história e o modo que ele a conta é de vital importância na análise do romance. O autor deve construir bem o narrador de sua obra, pois o mesmo é quem faz a ponte, a ligação entre o leitor e a obra. É necessário que o espectador entenda o ponto de vista e a perspectiva desse mediador. Há nas narrativas três tipos de narradores, o que conta a história em primeira pessoa (narrador personagem), sendo narrador e personagem ao mesmo tempo, conta e participa da história simultaneamente. Já o narrador- observador, conta a trama, de um modo neutro, não participando dos atos das personagens, nesse caso a narração ocorre em terceira pessoa. Com o narrador onisciente a trama é contada sem o mesmo está presente, entretanto observa e conhece os pensamentos mais íntimos das personagens, muitas vezes intervindo e comentando as ações das personagens. Esse tipo de narração ocorre em terceira pessoa. Na contemporaneidade os autores, com intuito de enriquecer a obra utilizam mais que um foco narrativo, ou seja, vários narradores interligados na trama, deixando assim a história mais interessante, dinâmica prendendo o leitor até o final da leitura.



O discurso é o modo como as falas das personagens são apresentadas ao leitor. Esse s diálogos podem deixar o texto mais leve, dinâmico, lúdico ou dificultar a leitura, dependendo da pretensão do autor e o seu público alvo. Há três tipos de discursos, o direto onde a fala das personagens é feita de modo imediato, interrompendo a narrativa, normalmente o autor utiliza o travessão para marca a fala das personagens. O discurso também pode ocorrer de forma indireta, pelo qual o autor utiliza as palavras chaves “ele disse que”, “ela falou que”, para enfatiza a fala das personagens. Já o discurso indireto livre mescla esses dois tipos citados anteriormente e é utilizado para mostra os pensamentos das personagens, expressando e revelando assim os sonhos, desejos e os anseios mais íntimos e escondidos das personagens.                            Portanto, toda a ênfase literária como também a introdução histórica junto aos fundamentos teóricos, citados anteriormente, servem de base à análise crítica do romance em questão. Úrsula não só fora publicado nos moldes românticos como também foi escrito por uma mulher negra no século XIX, o que necessariamente obriga ao leitor uma concepção do contexto político-histórico-social em torno da autora, Maria Firmina dos Reis e de sua obra Úrsula. Relacionando mais uma vez: Literatura e História.


















Todo o enredo é construído por meio de uma submissão ora feminina, ora racial. A mãe de Tancredo é oprimida pelo pai, Luiza B. e Úrsula pelo antagonista Comendador Fernando. A escrava Susana, Tulio e Antero, por sua vez, só são oprimidos pelo senhor do qual os escravos não conseguem escapar. O enredo está concentrado no triângulo amoroso vividos por Úrsula, Tancredo e o Comendador, que é o assassino do Pai da jovem protagonista e acusado de abandonar a própria irmã entrevada numa cadeira de rodas, sem dar nenhuma assistência, ganhando formas de antagonista, maltratando escravos, dono de terras e de homens e mulheres que viviam submetidos ao seu poder político, e, sobretudo econômico.                                                                       O comendador Fernando se apaixona por Úrsula e começa a persegui-la, chegando a matar Tancredo na própria noite de casamento com a filha de Luísa B..., provocando a loucura e depois a morte da bela jovem, o antagonista acaba morrendo de remorso após o falecimento de Úrsula. O que se pode encontrar de forte é o que une a relação entre mãe e filha, mas deságua na impotência das lágrimas sem uma efetiva solução, cuja morte fosse a única saída, um escape oriundo das características românticas. Firmina torna sua obra Úrsula verossímil no que condiz à questão do negro e também pela sua finalização, pois diferente de outros autores românticos, Úrsula não tem um desfecho feliz e sim cheio de desencontros e ilusões. O final da “mocinha” é permeado com a morte e loucura.


Em seu livro, De temática abolicionista, o romance, que até então era pouco conhecido, chamado Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, revela o modo perverso com que os negros eram arrancados da África. Charles Martin pioneiro e prefaciador da obra Úrsula afirmam que o negro, aqui, não é apenas colocado na trama em pé de igualdade frente ao rico Cavaleiro”. Mais que isto, ele é a “base de comparação” (REIS, 1988, p. 10-11).                                                                                                                                                   A obra de Maria Firmina é representada por uma tríade africana: Túlio, Preta Suzana e Antero que permeiam o romance, dando a ele características que o distinguem dos demais romances abolicionistas da época. Os personagens africanos assumem uma postura mais embasada na africanidade e a prevalência de ações a que os escravos foram submetidos.                                                                                                                A preocupação da autora e o comprometimento com o personagem negro na literatura demonstra o ideal procurado por Firmina, pois o fato inovador: era a voz do negro dentro do romance e o perfil feminino, algo que até então não havia, antes os mesmos tinham seus sentimentos e pensamentos expressos sob o olhar do branco, ou seja, o colonizador.                                                                                                                        O grande diferencial de Firmina, uma vez que a mesma além de denunciar as atrocidades sociais reais também deu a voz do negro repleto e seguramente verossímil “(...) Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio.” (REIS, 1988, p. 83). Percebe-se que a autora foge dos padrões convencionais da época, da estética e moldes românticos dominantes naquele momento. Nesse romance, por meio dos personagens negros, que são individualizados culturalmente, é revelada a escravidão de um ponto de vista crítico, vivenciando a diáspora: É horrível lembrar que criaturas humanas tratem seus semelhantes assim que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos!” (REIS, 1988, p. 83). Os personagens não são corrompidos pelo que viveram, antes são oprimidos pelo sistema escravagista que imperava no Brasil no século XVIII.


         O mais jovem dos três escravos é Túlio, que na narrativa assume um papel fundamental, sendo responsável pela aproximação entre Tancredo e Úrsula e é também o equilíbrio e norteamento até as vozes de Preta Susana e Antero. As características de Túlio servem como um parâmetro moral de bondade, que, mesmo passando por infortúnios, é um ser humano elevado, de alma boa, sendo até mesmo equiparado ao herói da trama: Tancredo.
O mísero sofria: porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como a sua alma. Era infeliz, mas era virtuoso; [...] (REIS, 2004, p. 23).

       O jovem Túlio é idealizado, seus sentimentos são nobres, possuidor de um coração generoso, e é descrito como um ser imaculado, perdoador apesar de tantas atrocidades passivamente vividas. Em nenhum momento pensa em se vingar, ou reagir, seu objetivo é a liberdade, é ter uma vida como a de um homem branco. “Esse beijo selou para sempre a mútua amizade que em meus peitos sentiam eles nascer e vigorar. As almas generosas são sempre irmãs. ’’ (REIS, 2004, p.26) A autora dá um ar de igualdade, expondo a singeleza de uma amizade, de um laço fraternal, essa ideia se faz presente no decorrer do primeiro capítulo, no qual as duas almas generosas, sendo uma de um branco e outra de um negro se encontram e são apresentadas num tom heroico e sublime.


       O personagem Antero, que é um velho que utiliza da bebida alcoólica como um escape da corrompida liberdade que atualmente ele tem, a bebida seria um símbolo da nostalgia vivida pelo africano. Uma forma de voltar ao passado:
É o único vício que tenho; e ainda por conservá-lo não prejudiquei a ninguém. Que te importa que beba, ― acrescentou com voz que queria dizer: não tens coração› ― porventura pedi-te algum dinheiro para fumo ou cachaça? — e dizendo afagava a cabaça vazia com um desvelo todo paternal, como que arrependido de tê-la desprezado, a ela, a sua companheira constante. Pois bem ― continuou o velho ― no meu tempo bebia muitas vezes; embriagava-me, e ninguém me lançava isso em rosto; porque para sustentar meu vício não me faltavam meios. Trabalhava, e trabalhava muito, o dinheiro era meu, não o esmolei. Entendes? (REIS, 2004, p. 207)

Há presente nas falas de Antero, uma ambiguidade de valores da cachaça, o que nos leva a um plano mais profundo de interpretação. No Brasil, a bebida não é de boa qualidade, serve somente como símbolo de fracasso e de vício, já na África, ela assume um papel de descanso, natural do homem que trabalha na agricultura:
― Pois ouça-me, senhor conselheiro: na minha terra há um dia em cada semana, que se dedica à festa do fetiche, e n’esse dia, como não se trabalha, a gente diverte-se, brinca, e bebe. Oh! lá então é vinho de palmeira mil vezes melhor que cachaça, e ainda que tiquira. (REIS, 2004, p. 208)


No discurso de Preta Susana, é visto a experiência, a voz de quem muito viveu, e sabe a diferença entre a vida na África e a vida de liberdade no Brasil, e que para ela há uma diferença. Ocorre, então, pela primeira vez na literatura brasileira, uma abordagem diferenciada da liberdade na concepção do escravo. Com sua singeleza, Preta Suzana esclarece e apresenta a realidade ao jovem Tulio que tanto buscava sua liberdade:
- Sim, para que estas lágrimas?!... Dizes bem! Elas são inúteis, meu Deus; mas é um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo quanto me foi caro! Liberdade! liberdade... ah! eu a gozei na minha mocidade! – continuou Susana com amargura - Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranqüila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora. (REIS, 2004, 115)

Por meio da personagem Susana, é narrada o antes e o depois da sua captura na África. Esta narrativa ajuda a entender a forma que é construída a identidade do negro escravo. 

Tinha chegado o tempo da colheita, e o milho e o inhame e o mendubim eram em abundância nas nossas roças. Era um destes dias em que a natureza parece entregar-se toda a brandos folgares, era uma manhã risonha, e bela, como o rosto de um infante (...). Desgraçada de mim! Deixei-a nos braços de minha mãe, e fui-me à roça colher milho. Ah! nunca mais devia eu vê-la... Ainda não tinha vencido cem braças de caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio orientar acerca do perigo iminente, que aí me aguardava. E logo dois homens apareceram, e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira - era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão. (...) Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava - pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! meu Deus! (...) Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. (...)  fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. (...) Muitos não deixavam chegar esse último extremo - davam-se à morte. Nos dois últimos dias não houve mais alimento. Os mais insofridos entraram a vozear. Grande Deus! Da escotilha lançaram sobre nós água e breu fervendo, que escaldou-nos e veio dar a morte aos cabeças do motim. A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foram sufocadas nessa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades. (REIS, 2004 p. 116)

Os elementos socioculturais encontrados nesse trecho que constituem o trabalho e a forma de vida na mãe África são descritos de forma minuciosa pela autora, mesmo não tendo conhecimento efetivo, a obra torna-se real pelas características e expressão de uma cultura tão distinta da brasileira, a originalidade na obra de Maria Firmina, que rompe com os estereótipos pré-fixados, que apresentam o negro de forma mais real, sem preconceitos, e demonstra também a nobreza que há em seus personagens, visto que o escravo de Firmina é aquele que tem individualidade e não é somente uma passiva vítima da escravidão.
A dedicação à análise dos sentimentos dos personagens escravos denota a preocupação da autora em revelar de forma natural a capacidade sentimental e humana do negro o que a torna, devido a essa exploração de sentidos, uma escritora original à sua época, pois além de eternizar questões referentes à cultura negra e suas restrições frente a uma cultura diferenciada, seu romance torna perceptível sua visão ideológica em Úrsula, visto que a cultura do negro é expressa na obra em questão. Nesta linha de raciocínio a cultura é: ‘’(...) é o conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de uma dada formação social (...)’’ (BOSI, 1992, p. 226).                      Consequentemente, Firmina deixa o exemplo de um romance romântico típico do romantismo, porém com peculiaridades únicas, partilhando de seus anseios por um país livre. Portanto, tanto no âmbito literário, quanto no gênero especifico, ou seja, o gênero abolicionista, o valor étnico e histórico da obra são, consideravelmente, elementos discursivos claros e por si só capazes de caracterizar o valor da obra, o que contribui para a análise de um período antigo importantíssimo à literatura brasileira e cujas obras literárias e outras formas de expressão cultural não discutiram na mesma época que Firmina abriu este novo universo: o universo social e ideológico brasileiro, o qual permeia todo o romance Úrsula.


Com o surgimento dos ideais revolucionários, advindos da França e toda a Europa, o Brasil começa a ser influenciado por meio das diversas artes que chegavam até aqui. A ideia principal que propagava no fim do século XVIII era a que a mulher completa o homem, este último era sempre superior. Os filósofos iluministas partiram deste princípio quando se tratou de elaborar a imagem da mulher ideal. Porém, isso não correspondia à realidade, pois a Revolução Francesa não foi apenas uma rebelião de homens. E isso se deve às mulheres que são as principais vítimas no que tange à crise da inflação, de abastecimento e da desordem fiscal, fazendo com que as mulheres francesas das comunidades periféricas da sociedade participassem ativamente em diversos protestos. Com todo o ideal de liberdade, fraternidade e igualdade perante determinadas situações, as mulheres francesas começaram a reivindicar os seus direitos. Começaram a exigir o direito ao divórcio e o conseguiram em 1791. As mulheres estavam totalmente dependentes dos maridos, não possuindo nenhum bem que fosse realmente seu, e por isso lutavam pelo direito à propriedade, conquistaram a Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã, no ano de 1791.                                                        O sexo feminino começa a ganhar seu espaço, e a ter voz ativa na sociedade, uma mudança no aspecto social e político começava a ser disseminado, e isso se estende com grande força nas artes em geral. A Lei das Escolas de Primeiras Letras, outorgada no ano de 1827 pelo império surge e a escolarização que até então era desempenhada em conventos, em raras escolas particulares ou nas casas das professoras começaram a se profissionalizar. Com o passar de algum tempo as mulheres abriram diversas escolas, publicaram alguns livros, escreveram artigos e fundaram jornais em defesa do direito à liberdade de expressão. E então começou a se tratar de outras questões nos jornais, além dos direitos e deveres, tais como, negação do papel de escrava e ser vista como propriedade do homem, crítica ao casamento por interesse, defesa do divórcio e do sufrágio feminino e a abolição da escravidão.
A literatura, que aos poucos foi ganhando traços locais foi escrita e lida, em geral, por homens, embora uma ou outra poeta seja já conhecida no século XVII. No século XIX, quando a urbanização formou camadas médias e leitores, a mulher tornou-se parte integrante do público e dos praticantes do ofício. Na literatura dos Oitocentos, as sinhás do período colonial eram retratadas como lânguidas, complacentes, dependentes e caprichosas. Na realidade, a mulher no novo mundo desempenhou muitos papéis e atividades diferenciadas, não prescritas, até mesmo transgressoras. Entre eles o de escritora. (TELLES, 1989, p. 73-78).

O que pode se destacar dentro dessas conquistas femininas, foi o de ter liberdade para escrever, de transpor por meio de histórias as ideologias libertárias e de igualdade. Em Úrsula, a autora maranhense, que era mulata, pobre e bastarda e submetida à crítica masculina, apresenta a voz de grupos sociais menos favorecidos; são eles os negros e as mulheres, essas últimas por meio das personagens Suzana, Úrsula e Luísa B..., que por meio do romance folhetinesco apresenta uma nova concepção da mulher e do negro.
        

A personagem Suzana retrata a maturidade e o conhecimento, sua concepção de alforria se entrelaça com a vida da autora, a ideia de liberdade era a voz de Maria Firmina Dos Reis, viver livre num país racista, não era a verdadeira liberdade. A submissão da personagem vinha não só de ser uma mulher, mas também negra.

- Tu! tu livre? Ah não me iludas! – exclamou a velha africana abrindo uns grandes olhos Meu filho, tu és já livre?.... – Iludi-la! – respondeu ele (...) Mãe Suzana, graças à generosa alma deste mancebo sou hoje livre como um pássaro, como as águas, como o éreis na vossa pátria.(...) – Liberdade! Liberdade ah!... eu gozei em minha mocidade! – continuou Suzana com amargura. Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. (REIS, 2004, p.114)

É por meio do testemunho desta mesma personagem que se encontra a voz da submissão. Quando a mesma relata que teve de deixar a família, sendo assimilada como uma mulher de virtudes, que era livre, mãe, esposa, trabalhadora do campo. E forçada a vir para uma nova nação para ser escravizada. É por meio de Suzana que emerge das margens do romance a voz do negro, ganhando um grande espaço entre os personagens, assim como a autora Maria Firmina emerge das margens de uma sociedade machista e controladora.                                                                                                        O discurso cristão vai dando força à voz dos personagens negros e femininos, e convencendo o leitor aos ideais propostos, a proximidade com termos cristãos reforça a ideia do amor ao próximo:
Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima - – ama a teu próximo como a ti mesmo – e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante!... aquele que também era livre no seu país... aquele que é seu irmão?! E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista. (REIS, 2004, p. 23)

       As personagens femininas e suas inquietações como mulher no século XVIII, seus limites impostos por uma sociedade são denunciados de forma que leva o leitor a uma reflexão sobre a submissão que era submetida:

[...] este desgraçado consórcio, que atraiu tão vivamente sobre os dois esposos a cólera de um irmão ofendido, fez toda a desgraça da minha vida. Paulo B... não soube compreender a grandeza de meu amor, cumulou-me de desgostos e de aflições domésticas, desrespeitou seus deveres conjugais,  e sacrificou minha fortuna em favor de suas loucas paixões.  (REIS, 2004, p.102).

Nas entrelinhas de cada fala, é visto o desabafo de milhares de mulheres daquela época, diversas circunstâncias que faziam da mulher um personagem dominado por homens, sem autonomia para suas próprias decisões, e a voz desse grupo é elevada por meio de personagens como Luíza B... Que ao relatar o que viveu aponta para algumas lacunas que deveriam ser revistas pela sociedade.                                                Luíza B... sofre há 12 anos numa cadeira de rodas, viúva e abandonada pelo irmão, e não tem outra saída senão cuidar de sua filha até a chegada de sua morte. Após a morte do seu marido, o comendador Fernando comprara as dívidas do casal e assim tornara a irmã e a sobrinha sua propriedade. Contudo, era por meio da paralisia da mãe de Úrsula que autora representava a mulher sem poder se locomover, estagnada e dependente do esposo, filhos, para dar voz as suas vontades. Estar presa numa cadeira de rodas simbolizava o sentimento da mulher perante a sociedade.

Há doze anos que arrasto a custo esta penosa existência. Só Deus conhece o sacrifício que hei feito para conservá-la. Parece-vos isto incompreensível? – interrogou ela ao mancebo, que atento a escutava – Sou mãe, Senhor! Vede minha pobre filha! É um anjo de doçura e bondade, e abandoná-la, e deixa-la só sobre este mundo, que ela mal conhece, é a maior dor de quantas dores hei provado na vida. Sim, É a maior dor- continuou ela com amargo acento – porque então perderá o único apoio que ainda lhe resta! Ao menos se meu irmão pudesse esquecer o seu ódio, e protegê-la!... (REIS, 2004, p.100)

A jovem protagonista Úrsula saia do berço sem esperanças, pois seu pai já havia a deixado, teria morrido ainda na infância da jovem donzela, que cresceu à margem da sociedade por não ter o amparo de uma figura masculina.
- Não, senhor – ninguém, a não ser eu, sentiu a morte de meu esposo. A justiça adormeceu sobre o fato, e eu, pobre mulher, chorei a orfandade de minha filha, que apenas saía do berço, sem uma esperança, sem um arrimo, [...] (REIS, 2004 p.103)

A pobre órfã Úrsula que não vivia presa a um castelo, mas sim a cama de sua mãe, teria as mesmas inseguranças que outras jovens de sua época, fato de ser dependente de um dote e até mesmo de um nome, para ter segurança e estabilidade para um bom casamento, já não tinha pai, e isso era um dos fatores sociais que impediam muitas mulheres de se casarem, assim, iria acontecer com Úrsula, que tinha uma mãe desenganada, por todas as circunstâncias que envolviam a donzela pra um triste fim.



       Úrsula denuncia questões inerentes à servidão negra, pregando a liberdade daquele que fora tirado sem nenhuma misericórdia de sua terra e tratado como objeto sem valor. A autora ousou em seus textos, já que dentro da sociedade machista da época uma mulher e, sobretudo, negra, não deveria em nenhuma hipótese participar da criação literária do país. Apesar disso, a autora inova em seu discurso antiescravagista e os ideais abolicionistas mostrados sob a ótica do negro, já que em outras obras essas questões eram abordadas na visão do senhorio e da elite da época. Firmina foge do estereótipo dado ao negro e a mulher e os mostra como íntegros e justos mesmo sofrendo com a servidão e submissão imposta pelos grandes senhores. O negro bom e fiel à sua identidade também foi mostrado pela norte americana Harriet Beecher Stower em sua obra A cabana de pai Tomás. Firmina torna sua obra Úrsula verossímil no que condiz à questão do negro e também pela sua finalização, pois diferente de outros autores românticos, Úrsula não tem um desfecho feliz e sim cheio de desencontros e ilusões, o final da “mocinha” é permeada com a morte e a loucura.                                                        Há muito tempo discutem-se questões referentes às classes sociais como o preconceito racial e, principalmente, a igualdade, no entanto, Maria Firmina inaugurou essa representação literária, gerando assim, um novo olhar no período romântico, construindo uma visão inteiramente nova sobre o personagem negro e nisto consiste a ideologia dessa escritora, que comparando Úrsula a outras obras da época, como Vítima Algozes e Escrava Isaura, em que o perfil do negro dentro da narrativa é exposto apenas por segundos e terceiros, e que são fisicamente e psicologicamente perversas gerando assim contradições. Como visto anteriormente, escritores como Joaquim Manoel Macedo ao publicar Vítimas Algozes não diferenciou, no sentido psicológico, a imagem do negro e o pôs, como de costume, numa escala bem inferior à do branco:
Os escravos muitas vezes prejudicam ao seus senhores cem vezes mais do que estes podem calculam, fazendo refalsada e misteriosamente o dano que podem. (...) Basta um escravo perverso para a sementeira de ruínas (MACEDO. 2010 p. 94).

Além do negro e das questões relacionadas à liberdade, Firmina apresenta a mulher e o homem afrodescendente de uma forma diferenciada: a preta Suzana, por exemplo, no que condiz as características físicas não é mostrada como objeto sexual, já que boa parte dos autores mostravam a mulher negra explorando a sua sexualidade. Firmina inova e aborda questões referentes ao sofrimento vivenciados pelas negras da época. Outra inovação da autora é um capítulo feito para a negra Suzana que conta para Tancredo sua dor e sofrimento ao sair de sua terra ainda jovem: “E logo dois homens apareceram, e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira - era uma escrava! [...] os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão.” (REIS, 2004, p.116). Suzana é a voz de uma ancestral que foi retirada de sua terra por uma forma desumana e desleal não só ao negro, mas também ao ser humano. Dessa forma, com essa abordagem diferenciada Firmina constrói a identidade do escravo, que, apesar de submisso, luta pela sua liberdade e não permite que a dor da escravidão apague a sua cultura, religião filosofia e, sobretudo, seu caráter e, desse modo, eternizando sua história e valores.  Por isso para Charles Martin, prefaciador da terceira edição do romance Úrsula, é importante ressalta que: ‘’(...) É em Úrsula, no entanto que vemos uma genuína preocupação com a história, o elo com a África e a consciência para com as próprias raízes, ao contrário dos demais livros abolicionistas, que raramente mencionam a África como verdadeira terra natal dos negros (...) ’’(REIS, 1988).




 





.                                                                                                                                            Além de questões inerentes a escravidão, o Romance Úrsula revela um povo e a sua cultura caracterizando a submissão como forma de resistência e dando a voz de dois grupos oprimidos caracterizando a sociedade brasileira do século XIX. A impotência diante do patriarcalismo e machismo fizeram da autoria de Maria Firmina dos Reis um diferencial para sua geração, e é diante de tantas injustiças que a figura do negro e a mulher são apresentados sobre uma perspectiva diferenciada.                                          Com isso a autora apresentou em Úrsula o olhar de afrodescendente, uma narrativa cujos personagens negros têm voz ativa e fazem, diretamente, parte do enredo. O romance Úrsula ultrapassa a dimensão abolicionista já que Firmina mostra o negro como ser humano e que merece ser ouvido. E com ousadia, a Maranhense eleva a condição do negro, fazendo dele um herói, inaugurando essa posição que até então em outras obras do mesmo período não havia.                                                                 Nesse romance a mulher é vista como alguém que apesar de submissa têm opinião e não é somente um objeto sexual, porém vive atrás da “sombra” do homem, respeitando sempre o limite imposto pela sociedade e por leis retrogradas. É por meio da submissão que lateja incessantemente o discurso feminino e por meio das personagens que se revestem de resistência e ganham características de representantes de um movimento que estava por surgir, devido a revoluções advindas da França. Como a maioria dos leitores eram mulheres, o alvo de Maria Firmina estava sendo alcançado, e foi por meio da literatura e da voz incessante da autora que muitas organizações femininas ganharam força e fizeram acontecer a mudança necessária da posição das mulheres na sociedade brasileira.                                                                                     A narrativa é desenvolvida por meio da história, realidade e ficção, e é   por meio da análise dos personagens femininos e negros, do discurso permeado de religiosidade e caracterização cultural do negro que é permissível aos leitores e pesquisadores uma proximidade e identificação por meio do sentimentalismo romântico. A autora centraliza as atenções em um texto de idealização amorosa, comum para o período romântico, mas que numa análise mais profunda faz emergir o patriarcalismo escravocrata e a passividade feminina.                                                                                                                  Tal fato faz de Úrsula uma das obras abolicionistas mais verossímeis, portanto sendo um diferencial que traz à tona reflexões de um povo que por muito tempo fora apagados da nossa história, fundando uma nova perspectiva e com ideais a frente do seu tempo Maria Firmina dos Reis se estabelece na história como pioneira e assim, deixando um legado de grande valia às futuras gerações de apreciadores e estudiosos da análise literária.















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