FACULDADE
DE SÃO VICENTE – UNIBR
LETRAS
KELLY
SANTANA MAURICIO
MATHEUS
HENRIQUE BARROS MORAES
VIVIANE
SILVA TIMOTEO
A FIGURA DO NEGRO E DA MULHER: UMA ANÁLISE DO
ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS
REIS
São Vicente
2013
KELLY
SANTANA MAURICIO
MATHEUS
HENRIQUE BARROS MORAES
VIVIANE
SILVA TIMOTEO
A FIGURA DO NEGRO E DA MULHER: UMA ANÁLISE DO
ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS
REIS
Trabalho de
Conclusão de Curso apresentado ao curso de Letras, como requisito para obtenção
do título de licenciado em Língua Portuguesa e Inglesa.
Orientadora: Prof.ª
Márcia Pimenta
São Vicente
2013
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
A mulher no Brasil até os meados do século XIX era vista somente como
reprodutora e cuidadora do lar e não recebia educação. A função da mulher na
época se restringia a serviços domésticos, submissão ao marido e à família.
Somente após a chegada da família real portuguesa, a mulher começou a
frequentar a escola, mesmo que com certo tom de discriminação.
As mulheres que eram afro-brasileiras enfrentavam maiores problemas,
pois sofriam preconceitos, discriminações e eram tidas como objeto e
estereotipadas, por isso a mulher negra era “objeto de tripla
discriminação, uma vez que os estereótipos gerados pelo racismo e pelo
sexíssimo a colocam no mais baixo nível de opressão”. (GONZALEZ, 1982, p.97). Poucas
dessas mulheres tinham acesso à escola e à educação, porém as que recebiam
esses privilégios viam na literatura um modo de ressaltar sua importância na
sociedade, com isso produziam livros utilizando pseudônimo com intuito de
escapar da repressão. Maria Firmina dos Reis,
autora fonte dessa pesquisa, foi uma dessas mulheres. Seu pseudônimo era ‘’A
maranhense’’. Nascida em 11 de outubro de 1825 em São Luiz do Maranhão, a então
menina bastarda e mestiça teve uma vida difícil, seu pai era negro e escravo e
sua mãe filha de portugueses.
Sua primeira obra, intitulada Úrsula,
escrita no ano de 1859, momento em que a prosa de ficção estava dando seus
primeiros passos no Brasil, a autora apresenta um romance romântico, muito
parecido com o romance gótico inglês, revela através de seus personagens uma
questão social e muito sensível para aquela época: a escravidão. O moderno e
surpreendente na obra está na história dos escravos e seus diálogos, dando
características e importância até então não encontrada em histórias
anteriormente apresentados naquele período. As obras
de Maria Firmina vêm com algo inovador, antecipando obras como a de Castro
Alves em o Navio Negreiro (produzida de 1876 à 1883), Joaquim Manoel de
Macedo em Vítimas algozes (1869) e o romance Escrava Isaura, de
Bernardo Guimarães, pertencentes ao romantismo.
Firmina é hoje considerada a primeira autora da
literatura afro-brasileira e seu romance Úrsula
o primeiro romance abolicionista brasileiro. Com isso, esse trabalho
foca sua pesquisa no romance romântico brasileiro de cunho social ligado à era
abolicionista e a perspectiva feminina diante de uma sociedade ainda retrógada,
portanto baseando-se em teóricos especialistas nessa escola e o contexto que
este período teve e tem na história da literatura, citando os principais:
Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira, que trouxe para
este estudo a coesão do período romântico da literatura brasileira, podendo,
assim, introduzir nesse trabalho o contexto histórico do Brasil da época. Outro
teórico importante é Afrânio Coutinho em Introdução à Literatura no Brasil, pois
sua clareza e organização da prosa romântica, como também a teoria da literatura
destacou aspectos importantes à análise literária da obra em questão. Antônio
Soares Amora com sua História da Literatura Brasileira confirmou todo o conteúdo estudado
anteriormente, uma vez que toda referência nesse livro possibilitou uma maior expansão
de ideias contextualizadas com o período histórico referente a prosa literária
brasileira. Por
fim, Maria Lucia Mott, em Submissão e Resistência: A mulher
Negra na Luta contra a Escravidão, que serviu de base principal à análise
do negro durante a escravidão, como também a inovação da mulher no contexto
histórico e sua efetiva participação na construção do Brasil e da literatura
brasileira, fato que subsidia nossa pesquisa sobre o romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. Em
suma esse trabalho tem por objetivo analisar os personagens negros e a estética
dedicada aos personagens femininos contextualizando a submissão que há entre os
dois grupos, como também a inauguração que Firmina aplicou em seu romance
caracterizando o negro e a sua voz como parte principal de seu romance
abolicionista.
1.
A LITERATURA
ABOLICIONISTA NO BRASIL OITOCENTISTA
Nos primeiros anos de colonização no Brasil, a questão
da escravidão ainda era tida como irrelevante para a literatura e só ocuparia
espaço importante no século XIX, com a introdução do Romantismo e,
principalmente, as reivindicações que o mesmo trazia consigo, expressando
sentimentos de igualdade, fraternidade e liberdade, misturados à resignação e
revolta.
1.1. A Escravidão
Os
navios negreiros ficaram conhecidos por serem o meio de transporte que
traficava os negros trazidos da África. Esse tráfico aconteceu a partir do
século XV e perdurou até o século XIX. Milhares de pessoas, entre elas crianças
e mulheres, foram arrancados de seu país, e pior, transportados em mínimos
espaços reservados nos navios, sem levar em conta a falta de higiene, água e
alimentação. Por isso, no mesmo espaço, encontravam-se a fome, a sede, as
doenças, a sujeira, os agonizantes e os mortos. Eram em média 400 negros
transportados em cada espaço desses. As condições dos negros amontoados e
acorrentados eram míseras e, assim, atravessavam o Atlântico ancorando nos
litorais brasileiros. No
Brasil, houve um grande lucro através desse mercado e, devido a isso, se
originou a Companhia Geral de Comércio do Brasil, em 1649. Além da escravidão,
os africanos perceberam que o desafio, na verdade, era sobreviver, apesar do
que tinham de enfrentar. Assim, teriam que conviver com a brutalidade que
sofreram ao serem arrancados de suas terras e de seus ancestrais. Nota-se que a
escravidão, literalmente, era submissão aos proprietários e, portanto,
suscetíveis a serem trocados, vendidos e comprados, além de trabalhar sem
cessar nas variadas e árduas ocupações como: a extração de ouro e pedras das
minas, plantando e colhendo cana, café, cacau, algodão e produtos tropicais
para exportação. Além do campo, eles formaram uma mão de obra numerosa e a
maior na construção de casas, fábricas, estradas etc.. “Eram também os
responsáveis pela distribuição de alimentos, como vendedores ambulantes e
quitandeiras que povoaram as ruas das grandes e pequenas cidades brasileiras’’.
(LIMA, 2005. p. 65). A Constituição brasileira, de 1824, considerada moderna e
liberal, deixou prevalecer o direito dos proprietários sobre seus escravos.
Isso baseado no liberalismo, o qual refletia que todos os homens eram livres e
iguais, por isso o sistema escravocrata tornou-se um dilema insistente no
Brasil no século XIX. Um sistema econômico que formou conceitos e definiu uma
sociedade desigual, forjando pensamentos, juízos e comportamentos de mandar e
obedecer. A partir daí os lugares foram instituídos e os cidadãos deveriam ocupar
seu lugar na sociedade, eles mandavam e os outros obedeciam. Os negros oprimidos na sociedade não
podiam, legalmente, firmar contratos, possuir bens, ser testemunha em
processos, muito menos escolher trabalho ou para quem devia trabalhar, a mortalidade
era alta e a taxa de nascimentos baixa, por isso era necessário adquirir novos
escravos e substituí-los pelos velhos ou mortos. Em 1822, o Brasil deixou de ser
dependente de Portugal, no entanto, no século XIX, escravos e escravas padeciam
no engenho de cansaço, devido ao desgaste físico e por isso não podiam
trabalhar. Diante da posição social ocupada pelo negro sempre lhe foi atribuída
à responsabilidade, não se considerando a estrutura social e internalizando-se
a ideia de que se o negro não venceu é por que este não tem capacidade.
Divulgado no século XVIII, o racismo científico calculava uma preconceituosa
pesquisa sobre as diferenças das raças, como anatomia do negro comparada a do
branco, o intelecto que foi considerado, biologicamente, sendo inferior, ou
seja, estudos científicos baseados no interesse da elite que patrocinavam tais
divulgações.
O
racismo científico é claramente uma ideologia na qual está afirmada a
superioridade cultural indiscutível da raça branca, já que a civilização está
associada aos brancos e a seus atributos físicos, enquanto a barbárie ou a
selvageria é associada às outras raças. (WIEVIORKA, 2007, p. 24).
E essa
atitude preconceituosa e egoísta contribuiu para a continuação dessa forma
brutal e desumana de manter um sistema escravocrata no mundo e aqui no Brasil
por mais de três séculos. Portanto, caracteriza-se o período colonial e
imperial brasileiro como uma clara sociedade escravagista, pois não eram
apenas donos de escravos e sim patrocinadores da escravidão, os mesmos eram
racistas porque negros mestiços e escravos livres permaneceram como seres
inferiores perante os brancos europeus ou brasileiros.
1.1.1.
A
Abolição da escravatura no Brasil
A
campanha política que aconteceu nos últimos dez anos antes da libertação dos
escravos defendia o fim da escravidão no Brasil. Em 1888, a Lei Áurea foi
decretada, acabando com o regime escravagista que existia desde o período
colonial. O lucro escravo começava a declinar com o fim do tráfico, em 1850, e,
concomitantemente, formava-se um novo mercado operário, desta vez pelos
imigrantes que eram assalariados e não escravos. A campanha abolicionista cresceu após o início da
Guerra do Paraguai, que durou 5 anos até 1870, pois centenas de ex-
escravos que voltavam da guerra com a vitória não se submetiam mais à condição
anteriormente exercida, a de escravo, e tornaram-se um problema social, o que
resultou numa questão política afetando diretamente a elite imperial. Dentre
muitas leis que entraram em vigor no longo de três séculos, a Lei do Ventre
Livre é considerada a pioneira no Brasil, pois, em 1871, ela libertaria os
filhos de escravos que nasceram a partir dessa data, porém estes escravos
conseguiam mesmo sua liberdade quando completavam vinte anos, ou seja, é uma
lei estética que continuava aprisionando o negro por mais de vinte anos. Neste
momento importante e decisivo, o Brasil estava em busca de justiça e liberdade,
contudo o Ceará foi o primeiro Estado a declarar a abolição no dia 25 de março
de 1884, o que impulsionou os demais estados brasileiros, proporcionando o fim
gradual e definitivo da escravidão no Brasil, porém o fim aconteceu mesmo
quando os escravos começaram a fugir de suas fazendas, alojando-se em outras
que eram a favor da abolição, desestruturando de forma totalizadora as finanças
dos proprietários. Outra
lei que favoreceu aos negros foi a Lei dos Sexagenários, promulgada em 1885,
que dava liberdade aos negros com mais de sessenta anos, em troca os
proprietários receberiam uma recompensa, porém poucos escravos atingiam essa
idade vivendo em horríveis condições e os que sobreviviam não tinham condições
de trabalhar. Em 13 de maio de 1888, a elite dominante e as leis imperiais não
conseguiam mais burlar a abolição, e a princesa Isabel assina a Lei Áurea. Em
contrapartida, os fazendeiros revoltados exigiam indenizações pelos seus bens,
descontentes pelo prejuízo, entram no movimento republicano a fim de pressionar
o governo. Com esta decisão o Império cai junto com sua forma de lucro e
sustentação. O fim da escravatura, porém, não melhorou a questão social dos ex
– escravos, que não têm acesso à educação, muito menos a uma formação
profissional, por isso a emancipação jurídica, apenas, não serviu de subsídio a
sua libertação como cidadão. Os negros ex- escravos continuaram sendo a classe
esquecida da sociedade brasileira e mesmo depois da proibição, o tráfico de
escravos continuou proporcionando um grande desequilíbrio nacional.
Historicamente pode-se afirmar que:
O Treze
de Maio não é uma data apenas entre outras, número neutro, notação cronológica.
Não se decretava oficialmente o exílio do ex- cativo, mas passaria a vivê-lo
como estigma na cor da sua pele. (BOSI, 1992, p. 272)
Dessa
forma, a abolição não passou de uma fase burocrática e insatisfatória, pois a
falta de estrutura fez com que a realidade dos negros continuasse a mesma,
devido à alienação dos mesmos que foram marginalizados por três gerações e cujo
momento de alforria fora mal entendido. Assim, sem assistência social, os
negros continuaram com seu labor, porém dentre muitos houve os que se
sobressaíram e fizeram de sua cor uma referência à liberdade entre os homens,
lutando e reivindicando sua posição dentro de uma sociedade ainda racista.
Essa temática, na literatura, apresentou-se de diferentes formas no
decorrer dos séculos. Depois de 1860, com o Brasil vivendo os dramas da
campanha abolicionista, esse assunto passa a ser explorado de forma artística e
política pelos românticos que, finalmente, retrataram a escravidão negra, uma
vez que esse discurso já se espalhava na Europa. Tratava-se de condenar a
escravidão de forma geral, enquanto instituição injusta e, sobre este pretexto,
o negro foi figurativizado no romantismo, tanto nas estrofes quanto na prosa,
sobressaindo aí a grande inovação literária: a temática abolicionista na
literatura brasileira. Essa
prática que atravessou séculos e forçou diversos negros a sair de seus locais
de origem para terem seus corpos escravizados caracterizou uma fase de
sofrimento e perturbações aos mesmos. No entanto, a escravidão e suas
atrocidades proporcionaram a indignação de autores nomeáveis de nossa
literatura brasileira e revolucionou o período romântico dando vida ao romance
de cunho social, não apenas no Brasil, pois na realidade movimentos abolicionistas
aconteciam em várias partes do mundo advindo das ideias iluministas inspirados
nos ideais da Revolução Francesa, como também o Romantismo europeu, que
influenciou ainda mais os escritores em todo o mundo, inclusive os brasileiros
da época. O Romantismo retrata, de
forma artística, a evolução existencial de uma nação e de conceitos relativos não
só ao indivíduo, mas também uma análise dos diversos grupos e demonstra, esteticamente,
a evolução do homem e da sociedade na qual está inserido, valendo-se como fundamento
o contexto histórico e sócio-político. Todas as atitudes ideológicas no
romantismo têm em comum a afirmação literária que busca uma identidade própria,
sem moldes. Dentre os vários poetas, fases, e gerações encontra-se a ênfase voltada
à autonomia nacional e seu prelúdio à liberdade enquanto nação e enquanto indivíduo.
O negro, por sua vez, permeia esse espetáculo social e assemelha-se ao
personagem principal de um período histórico de uma nação chamada Brasil. No
século XVIII, a figura do negro na literatura foi escassa, houve um
esquecimento das causas, pois eles apenas tinham expostas, na ficção, sua
participação no trabalho dentro do campo e da cidade, não compondo grande
influência nas obras. “Alguns autores
como José de Anchieta, Tomás Antônio Gonzaga entre outros citaram o negro em
suas obras. ’’ (FRANÇA, 1998.
p.151). Poetas,
prosadores e jornalistas negros, ao publicarem seus escritos, assumiam uma
grande causa, pois o fato de ser negro no século XIX era a mesma coisa que ser
alguém à margem de uma sociedade, que escravizou e não deu opção a tantos.
Nesta causa literária em busca da liberdade encontra-se Luís Gama, que foi
transportado como escravo até a cidade do Rio de Janeiro. Em 1859, com o título de Primeiras
Trovas Burlescas do Getulino, Gama reuniu poesias satíricas que
ridicularizavam o sistema escravocrata e a elite da época. Além de Luís Gama, muitas outras
figuras merecem referência neste estudo por terem construído a história dessa
evolução brasileira, pessoas como Joaquim Nabuco vindo de família bem
considerada socialmente, foi alfabetizado junto com os filhos dos escravos,
escreveu poemas e foi um grande patriota. A escravidão sempre foi principal
foco em suas obras; a primeira, chamada A escravidão, não teve sucesso;
porém foi em 1883, quando publicou O Abolicionismo, durante o período em
que esteve em Londres, que realmente ficou conhecido como escritor e que
segundo ele em seu próprio livro afirma:
Para
nós, a raça negra é um elemento de considerável importância nacional,
estreitamente ligada por infinitas relações orgânicas à nossa constituição,
parte integrante do povo brasileiro. Por outro lado, a emancipação não
significa tão somente a termo da injustiça de que o escravo é mártir, mas
também a eliminação simultânea dos dois tipos contrários, e no fundo os mesmos:
o escravo e o senhor. (NABUCO, 2000. p. 6)
Joaquim Nabuco morreu em Washington, no ano de 1910,
deixando seu ideal vivificado por muitos outros brasileiros. Participante
também desta luta foi José do Patrocínio natural de Campos. Mestiço, formou-se
aos 20 anos de idade, atuando principalmente como jornalista. Indignado com a
escravidão, em 1881, fundou a Confederação Abolicionista e, em 1883, elaborou o
Manifesto da Confederação Abolicionista, no qual exemplifica: “Ora é
princípio jurídico que a prova incumbe vão contra a liberdade, porque a seu
favor está a presunção pleníssima do Direito’’ (PATROCÍNIO, 1883. p. 9). Sua
obra é bastante política e social, revelando a luta contra a escravidão no
Brasil. Faleceu no Rio de Janeiro, em 30 de janeiro de 1905. Castro Alves e sua composição o Navio Negreiro escrito em
1868, foi um marco da poesia social romântica, época em que o tráfico de
escravos já estava proibido no país, contudo os efeitos desumanos ainda
persistiam, e o poeta valeu-se do drama vivido pelos negros para denunciar os
sofrimentos assistidos na travessia da África ao Brasil pelos “proprietários”.
E foi nesse período que o Romantismo compôs, através de sua oratória
abolicionista, muitas obras literárias voltadas à cor local, traduzindo eventos
em que a natureza humana do negro escravizado opunha-se ao branco. Como cantor
dos escravos, Castro Alves mostrou um lado nada bom de nosso país, fator que
até então era ignorado pela escola romântica, porém à construção de uma
identidade nacional deve-se, sobretudo ao conhecimento verdadeiro de uma nação,
de uma cultura, de um povo. Nesta
mesma linha de pensamento, Castro Alves, denuncia, em um tom glorioso e
emotivo, a escravidão no Brasil, protagonizando o triste espetáculo reservado
ao negro durante a escravidão:
Tinir de
ferros... estalar de açoite... legiões de homens negros como a noite, horrendos
a dançar... Negras mulheres, suspendendo às tetas magras crianças, cujas bocas
pretas rega o sangue das mães (ALVES apud BOSI, 2010, p.78)
Toda
essa construção poética permeada por sonoridade dantesca e óbvia denunciava a
condição miserável dos escravos. Ressalva-se que nesta época o público leitor
era constituído, em sua maioria por membros da elite econômica a qual também
era proprietária dos escravos, a escolha lexical das palavras e a sonoridade
que elas têm compõem uma canção nova na Literatura Brasileira. É necessário
levar em conta que nesta época os escritores enfrentaram vários preconceitos
por não esconderem as suas origens. Para esses, era vergonhoso e impossível não
admitir ser quem eram, pois tanto o físico quanto a cultura eram aparentes. O
papel do africano na formação de nossa sociedade serviu de base a vários
estudiosos, antropólogos, historiadores, críticos, porém o poeta tratou de
forma peculiar esta questão e à medida que o romantismo expressava os
sentimentos dos descontentes e a desestruturação de um regime decaído, a
literatura romântica crescia e, na intenção de denunciar as brutalidades que
ocorriam em torno dos negros escravizados, aflorou um novo conceito literário
romântico-social relativo e dedicado às questões que abordavam, de vários
ângulos, a escravidão. De
forma bruta e/ou melancólica a figura do negro, foi sendo introduzida às
páginas dos folhetins que passavam pelas mãos dos leitores, os quais estranhavam
o tom do poeta e a forma como discutiam certas questões que, com certeza,
impulsionaram muitos a irem contra a escravidão, pois neste sentido pode-se
dizer que a literatura romântica condiz com os ideais de liberdade e
influenciou de forma direta sobre os valores sociais reservados ao povo. Nesse
sentido, a literatura abolicionista do século XIX formulou e nos deixou o outro
lado da história, recontando a verdadeira vida dos negros e suas lutas, tanto
individuais quanto sociais, num Brasil ainda patriarcal que tentava burlar a
lei que libertava os escravos, porém sobre esses escritos nos restou a
confirmação da importante missão dos literatos desta época, que foi muito bem
executada e servem de base a estudos atuais, como esse próprio, possibilitando
também novas percepções e análises.
O movimento libertário abolicionista inspirou vários escritores
brasileiros, porém atentaremos a dois em especial, que tornaram visíveis duas
percepções do negro. O primeiro autor é Joaquim Manuel de Macedo, nascido em
Itaboraí, no dia 24 de junho de 1820. Ingressou na vida literária com o
clássico A Moreninha (1844), ganhou muito prestigio e é considerado o
primeiro romance típico
do Brasil, pois retrata costumes cariocas dos jovens burgueses. De mesma autoria a obra que chama a
atenção nesse estudo é As Vítimas Algozes que se opõe aos demais
romances que abordam a questão da abolição dos escravos, uma vez que os
escravos são figurados como seres realmente inferiores, capazes de corromper os
bons costumes e os culpa de todo mal que ocorre com os brancos dentro da sociedade.
No prólogo, explica:
Aos Nossos Leitores, não lhe interessou, nas
educativas e moralizantes histórias que entregava aos consumidores de sua vasta
obra, pintar o quadro do mal que o senhor, ainda sem querer, faz ao escravo,
mas, sim, o quadro do mal que o escravo faz de assento propósito ou às vezes
irrefletidamente ao senhor. (MACEDO, p. 17. 2010).
Para
Macedo, o país produz negros oprimidos e rancorosos devido à escravidão, daí o
título – Vítimas-Algozes. Desse modo,
a escravidão deve ser banida pouco a pouco até a extinção de tudo sem causar
dano algum. Para tanto, de forma contrária aos demais, Macedo usa algumas personagens
como Lucinda, a fim de provar que negros escravos são incapazes de se tornar um
bom ser humano debaixo de tanta aflição. Entre seus personagens estão a figura
do negro feiticeiro, do moleque traiçoeiro, da escrava assassina, das negras
que mantêm relações sexuais com seus patrões, da mucama ordinária, de outros
negros que vadiam durante o dia e dos mulatos trambiqueiros. Com isso, Macedo
configura suas intenções a fim de influenciar os proprietários a libertarem
seus negros para seu próprio bem e de sua família. Portanto, a corrupção e a
perversão associada ao negro são justificadas pelos castigos feitos aos mesmos
pelos proprietários e por isso deve acabar. Outro romance
que ganha destaque neste estudo foi escrito por Bernardo Guimarães, A
Escrava Isaura, publicado em 1875, durante a campanha em prol da abolição.
A pretensão do autor foi a de fazer uma documentação antiescravagista e pôr um
fim na escravidão. Porém, o que causa um estranhamento é que sua escrava
Isaura:
(...)
é uma escrava branca, da cor do marfim, magra, estatura pequena, cabelos
longas, muito bonita, pura, virginal, possuía um caráter nobre, inteligente,
era dotada de natural bondade e muito singela de coração, além disso, sabia ler
e escrever, falava italiano, francês e tocava piano. (...), porém ninguém diria
que tinha nas veias uma só gota de sangue africano, vive o drama de ser
submetida à bárbara e vergonhosa instituição. (GUIMARÃES, 2005, p. 12.).
O autor
compara o racismo a um simples fato estético.
Através dessa estratégia insere também em sua obra o aculturamento das
origens africanas inserindo a figura do negro de uma forma socialmente aceita,
ou seja, embranquecendo-o. Isaura é branca, cristã, educada e rodeada por
mimos, o que contraria a verdadeira imagem do negro na época. O autor de uma
forma simples e fácil constrói intrigas a fim de atrair e prender o leitor até
o desenrolar da trama, discutindo sutilmente a questão abolicionista para não
chocar o público escravocrata do século XIX. Contudo,
percebe-se no desenrolar da trama que de certa forma o autor achava injusto a
escravidão de uma moça “quase branca”, fina e bem educada como Isaura. Não há
nessa obra uma representação real do negro, em suma é uma idealização da mulher
escrava que em geral não era letrada, nem educada, pois não recebia esse tipo
de tratamento a qual Isaura fora submetida. Ao
publicarem essas obras, os autores estavam imersos nessa questão, apesar da
figurativização do negro em cada um dos romances ser diferente, os dois autores
estavam lutando pelo mesmo ideal através de uma arte: a Literatura em prol da abolição.
No entanto, apesar de haver vários escritores abolicionistas no século XIX não
significa que considerassem o negro realmente como igual ao branco; o
preconceito e a desigualdade permaneciam, pois “seus personagens são falsos e
artificiais; por exemplo, os negros, quando falam, não exprimem o que realmente
sentiam e a maioria dos negros no Brasil, estavam sob algemas’’ (FONTANA,1972. p.82). Contudo, o período romântico social
e político de nossa literatura tornou-se um ponto de importantes discussões,
referentes à questão humanitária, conhecida como abolição da escravatura e a
liberdade dos oprimidos, dando início a um longo percurso literário social e
libertário.
As mulheres não tinham participação na sociedade e
quando não pelos seus donos, eram proibidas e coagidas por um sistema desigual,
preconceituoso e egoísta, pois a escravidão do negro, por exemplo, perdurou por
séculos, crimes que foram socialmente aceitos.
O trabalho escravo exercido pela mulher negra cresceu à medida que as
necessidades dos brancos aumentaram, segundo Mott (1988), esse trabalho era
subdivido em rurais e domésticos, pois as de melhor porte ficavam com o serviço
caseiro como cozinhar, lavar, passar, engomar, enquanto as mais fortes e brutas
permaneciam no campo de doze a quinze horas tratando de colher, semear etc.
Havia também amas de leite que alimentavam as crianças de suas donas e escravas
que as acompanhavam a todo lugar. A
mulher negra, no Brasil escravocrata, servia seus patrões em tudo e eram
submetidas quase sempre a relações forçadas, e sua identidade foi caracterizada
por violências sexuais. Por outro lado, sua participação na construção e
formação dos quilombos foi algo muito relevante, pois elas, além de manterem a
comunidade, preservaram sua cultura, cuidando dos negros fugitivos, dos
combatentes feridos, além, é claro, de suas famílias. Suas principais rendas
provinham do artesanato que era produzido nos quilombos e vendido nos centros
das cidades, o que foi considerado a principal atividade econômica no quilombo
dos Palmares. As mulheres muitas vezes entravam na batalha com armas
improvisadas, por exemplo, água fervente que atingia os inimigos e os queimavam
afastando-os. A
fim de repensar algumas verdades inquestionáveis e contribuir à luta
feminina, Maria Lúcia Mott em seu livro Submissão e Resistência: a
mulher negra na luta contra a escravidão (1988) exemplifica que seu objetivo é “trazer
ao primeiro plano a resistência e a luta das mulheres.” (p.11). A
partir de exemplos precisos e verídicos, Mott (1988), afirma que a resistência
das mulheres foi a de sobressair-se apesar da submissão imposta desde os
primórdios de nossa civilização. O primeiro capítulo do livro chama-se “tirando
o véu”. A expressão tirando o véu é perfeita, já que mulheres negras como as que foram citadas
anteriormente saíram debaixo da cortina espessa que as cobriam destacando-se e
libertando-se. O padrão social no Brasil patriarcal sempre foi direcionado ao
homem e nunca às mulheres, por isso a independência da mulher negra, ainda que
apenas no quilombo, torna seu papel fundamental ao país e às origens africanas
que se fincaram no Brasil. Em meio ao conflito entre escravidão e o início do
capitalismo, as mulheres negras viviam dos trabalhos domésticos, e algumas não
tinham interesse para a instrução. As diferenças educacionais voltadas às
mulheres, principalmente mulheres negras, não existiam, pois apenas moças
brancas tinha acesso à educação e isso em espaços que não eram oficiais, uma vez
que, apenas homens tinha esse direito. As escravas aprendiam no labor diário,
no modo de resistir perante tantas atrocidades, nas fugas das fazendas
esperando por sua liberdade e, ainda quando a escravidão acabou, essas mulheres
não conseguiam ter participação efetiva na sociedade, muito menos no mundo
intelectual, salvo algumas negras que tiveram a sorte de ter uma criação
diferenciada. No
final do século XIX, mudanças ideológicas, políticas, sociais e culturais surgiram
e com elas muitas mulheres desejosas em adquirir sua posição na sociedade, tudo
isso em um tempo em que o ensinar a ler e a escrever eram proibidos às mulheres
segundo a lei. Para
Mott (1988), essas mulheres não foram escolhidas aleatoriamente, pois sua intenção
é a de gerar um profundo questionamento aos leitores enquanto percebem que
estas mulheres não estão nos manuais que reproduzem a história oficial. De
acordo com Mott (1988), foi caminhando vagarosamente, superando preconceitos e
obstáculos que a mulher, apesar de ter sua imagem degredada tão fortemente
propagada na sociedade, resistiu à submissão e atrelou ao caminho das artes
técnicas, dos estudos etc., sobressaindo-se e autenticando-se pelo seu valor
moral e social, ou seja, exercendo a igualdade entre os seres humanos de uma
mesma sociedade.
Contrárias à escravidão,
escritoras usavam os seus escritos para denunciar o sistema escravocrata.
Destaca-se entre elas Maria Firmina dos Reis, natural do Maranhão (1825 -1927),
“uma maranhense”, como assinou sua primeira publicação do romance Úrsula,
de 1859, até então é o primeiro escrito por uma mulher brasileira e de temática
inovadora, pois tem como foco a mulher e o negro com suas aflições. Úrsula foi publicado quando
Firmina tinha 34 anos e se tornou uma das obras mais importantes da autora para
a literatura brasileira, pois além desse escreveu o conto A escrava e
alguns poemas. Com
seu forte tema abolicionista, acontece, pela primeira vez, a reivindicação de
alguém que verdadeiramente vive a realidade, levando-se em conta o fato de
Firmina, a autora, ser uma afro-brasileira indignada com a sociedade em que
estava inserida. Desse modo, há esta pauta em sua obra, que se confunde com a realidade
da autora sofredora de algumas das mesmas restrições de seus personagens,
servindo essa obra como crítica à sociedade patriarcal brasileira. A então menina bastarda e mestiça teve uma vida
difícil, seu pai era negro e escravo e sua mãe filha de portugueses. Fora
criada por sua tia materna, no município de Viamão, ela escreveu poesias,
crônicas, ficção, charadas, lendas folclóricas, enigmas e também foi
responsável pela composição de um hino para a abolição da escravatura. Foi
professora, sendo que, aos vinte e dois anos de idade, venceu o concurso
público como “cadeira de instrução primária”, na cidade de Guimarães no estado
do Maranhão. Segundo o autor Nascimento Morais Filhos, um dos estudiosos das
obras e vida de Maria Firmina, ao se aposentar a autora fundou, no ano de 1880,
a primeira escola mista e gratuita do Estado. Uma mulher, mestiça, pobre, que
não seguia a mesma linha de autores da época, não teria grande êxito numa
sociedade aristocrata e patriarcal. Acarretando assim, sua obra ao esquecimento
de muitos autores e críticos literários por muitos anos. Em um momento em que a prosa de
ficção estava dando seus primeiros passos no Brasil Firmina em 1859, publica Úrsula
um romance romântico, muito parecido com o romance gótico inglês, que revela
através de seus personagens uma questão social e muito sensível para aquela
época: a escravidão. No enredo, temos Úrsula que é uma jovem que se apaixona
por Tancredo, estudante de direito, homem íntegro e de valores. Um amor
impossível por todas as circunstâncias que a narrativa apresenta. A traição, o
engano e a mentira dão ao romance um ar de clássico.
Partindo de uma realidade que era sua, Firmina
partilhou de seus anseios por um país livre e consciente dos valores cristãos
que têm como prioridade e o amor ao próximo. Pouco se sabia sobre a autora
negra, nordestina, pobre, bastarda, mulher, escritora, poeta e feminista, ainda
assim, de forma louvável alcançou seu mérito estabelecendo-se com uma escritora
inovadora considerada na literatura brasileira como um marco do romance social
tendo seu núcleo temático na cultura afro-brasileira em plena campanha
abolicionista no Brasil. Nessa
época, negros escravos ou não aproveitaram o poder e influência que a
literatura tomava no Brasil e partiram, como já se viu anteriormente, para a sociedade
em busca da liberdade e igualdade, característica do sonho romântico e Firmina
aborda esta questão. No prólogo de seu livro Úrsula, que é o atual
objeto de estudo, Firmina diz:
Mesquinho e humilde é este que vos apresento leitor.
Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de
outros, e ainda assim o dou a lume. Não é a vaidade de adquirir nome que me
cega, nem o amor próprio de autor. Sei que pouco vale este romance, porque
escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato
e conversação dos homens ilustrados. (REIS, 2004, p.13)
Por trás desta humildade apareceria uma importante
obra em nossa literatura, no entanto, Firmina não teve a honra de ver seu
romance reconhecido pelos críticos, pois na época de publicação não houve a
percepção de quão grande e inovador era esta obra. Portanto, os méritos
alcançados são concretamente merecidos a quem lutou pelos afro-brasileiros.
Apenas em 1970, viria à tona novamente e revelada ao grande público. Esta
redescoberta foi feita pelos estudiosos maranhenses Horácio de Almeida e
José Nascimento Morais Filho, em 1975, permitindo que muitas pesquisas,
inclusive essa, acontecessem. O sentimento de igualdade requerido é expresso
pela exclamação de seus personagens, que não compreendem como o europeu
conseguia tratar o africano de forma tão cruel, reduzindo-o a animal ou objeto
de pouco valor. E sobre estes personagens haverá a análise sobre a figura do negro
e a forma diferenciada que Firmina soube dar no romance, não deixando de lado a
comparação da mulher que também é discutida nesta obra, extraviando-se daqueles
folhetins reservados às mulheres da época. Úrsula é, incontestavelmente,
uma obra abolicionista de caráter literário e romântico, portanto referência ao
romance social do período romântico no Brasil, escrito por uma mulher negra no
século XIX.
O termo romantismo é originário da língua inglesa romantic proveniente do substantivo romaunt, de origem francesa [romanz
ou romant], referindo-se aos romances medievais de aventura. Com o passar
do tempo, esse adjetivo generalizou-se e designava qualquer tipo de
romance. Como movimento cultural surgiu
na Alemanha, no final do século XVIII, mas só se definiu nos países latinos e
americanos no século XIX. A publicação do
romance Os sofrimentos do jovem Werther, do escritor alemão Johann
Wolfgang Von Goethe, no ano de 1774, é considerado o marco inicial do romantismo
na Europa. O autor, nessa obra, trabalha com o trágico, a dramaticidade, o
egocentrismo, a idealização feminina e a subjetividade, temas abordados nesse
período literário. Na
Inglaterra, o romantismo ocorreu nos primeiros anos do século XIX, nesse
período, as poesias ultrarromânticas de Lord Byron (influência para grandes
autores brasileiros) tinham como principais características o negativismo,
egocentrismo, desilusão, individualismo e tédio. Na narrativa, destaca-se o Ivanhoé
de Walter Scott (considerado o criador do romance histórico) regido pelo o
espírito nacionalista pós-revolução francesa. A Alemanha e a Inglaterra foram os
países pioneiros desse novo movimento cultural, entretanto foi a França que o
divulgou. Obras como os Miseráveis (1862)
de Victor Hugo e
os Três Mosqueteiros (1844) de Alexandre Dumas são considerados grandes
clássicos da literatura mundial. A
primeira obra é considerada de caráter social, pois o autor ressalta as
injustiças e mazelas da sociedade da época, já a segunda publicação é baseada
em fatos históricos do séc. VXII. Dumas mistura personagens reais e fictícias.
Porém, a obra se destacou pelo lema dos quatro heróis: “Um por todos, e todos
por um”. Em Portugal, o percursor do romantismo é o autor Almeida Garret com
seu poema narrativo Camões (1825), uma
homenagem ao poeta português Luís Vaz de Camões (1524-1580). Nos
Estados Unidos (EUA), temos a publicação da A Cabana do Pai Tomás (1852)
da escritora e abolicionista norte americana Harriet
Elizabeth Beecher Stowe. Esse romance foi um dos mais lidos e comentados em
todo mundo e fonte de inspiração para diversos autores brasileiros como a
escritora maranhense Maria Firmina dos Reis em seu romance Úrsula (1859),
considerado o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, e
também, o primeiro romance da literatura afro-brasileira. Entretanto, por ter
sido escrito por uma mulher negra e que morava em local periférico o romance
não obteve muito êxito em sua primeira publicação e é pouco conhecido entre o
meio acadêmico. Em
seu romance A cabana do Pai Tomás (1852), Stowe destaca a visão
do senhorio quanto à abolição da escravatura, a narrativa é trabalhada sob a
ótica da elite. Já em Úrsula (1859), Maria Firmina apresenta o negro sem nenhum tipo de
preconceito ou estereotipo. Segundo o professor Eduardo de Assis Duarte, o
romance “tematiza o assunto negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida
politicamente em recuperar e narrar a condição do ser negro
em nosso país” (2004, p. 91).
2.1.1.
Características Românticas
O escritor romântico cultua o
individualismo valorizando os sentimentos e as emoções pessoais. O subjetivismo
é pregado pelo homem romântico, na busca pelo “EU” interior. Temas como melancolia,
desespero, escapismo, angústia são recorrentes desse período. A liberdade de
criação, versificação mais variada, nacionalismo, historicismo, medievalismo,
tradições populares, o folclore e a crítica social também são características
dos autores do período romântico. Segundo HIBBARD, o Romantismo:
(...) é o mundo visto através da personalidade do
artista. (…) é subjetivismo, é a libertação do mundo interior, do inconsciente;
é o primado exuberante da emoção, imaginação, intuição, liberdade pessoal e
interior. Romantismo é liberdade do indivíduo. (HIBBARD apud COUTINHO, 1976, p. 145)
Para
o romântico, a arte está ligada aos sentimentos e só pode ser expressa pela
emoção e pela espontaneidade. Com isso, esses artistas viviam em busca de
aventuras, emoções e motivados por essa procura alguns deles recorriam ao
alcoolismo, às drogas e à vida boêmia. O subjetivismo
é uma das principais características e no qual o autor romântico trata as suas
temáticas de forma pessoal segundo a ótica e os sentimentos do artista. O
individualismo prevalece. Nesse período também é visto a idealização dos fatos,
os autores tendem a criar e fantasiar um mundo perfeito e idealizar tudo o que
estar a sua volta. Como exemplos, temos a ideia de que a nação é perfeita, a
mulher sempre sensível, bela submissa e frágil. O sentimentalismo, a
tristeza, melancolia, desilusão, saudade [saudosismo] são temas característicos
nas obras desse movimento. A liberdade de criação começa a se tornar recorrente
e os modelos clássicos são abandonados, o pessimismo também conhecido como o
mal do século, morte, insatisfação pessoal, angústia por existir e a melancolia
é apresentada por meio das diversas obras artísticas produzidas nesse período
entre os romancistas. Com
tanta angústia em sua volta o romântico tende a fugir dos problemas por isso
temas referentes ao escapismo e a fuga é abordada pelos românticos. Nesse
contexto, o artista cria ambientes perfeitos para fugir da realidade, criando
universos imaginários e, muitas vezes, recorrem à ajuda divina. Com a busca da
identidade nacional, os autores desse período prezam pelo nacionalismo,
cultuando o popular e os elementos patriarcais, desse modo exaltando e louvando
a pátria. No que condiz ao aspecto formal, a literatura romântica rompe
com os padrões e as normas estéticas do classicismo. Os versos tornaram-se mais
livres, sem metrificação ou rimas. Em suma, o romântico tinha liberdade de
criação sem estar preso a modelos ou regras.
2.1.2.
Romantismo em outras artes
O romantismo não foi um movimento restrito só a literatura, influenciou
também a música, a pintura, arquitetura, o teatro, e variados tipos de artes.
Na música, destacam-se artista como Weber, Schubert, Schumann, Beethoven,
Berlioz e Chopin. Como no romantismo na literatura o artista desse
período buscava romper o clássico desligando-se da arte do passado, alguns
desses compositores inspiravam-se em livros, quadros, esculturas, pois esses
musicistas na maioria dos casos interessavam-se por vários tipos de artes. O
autor que mais se destaca nesse momento é o alemão Ludwig van Beethoven
(1770-1827), nas suas composições o pessoal e o EU são profundamente
trabalhados. Nesse
período, difundiu-se o que chamamos de música descritiva na qual a melodia é
representada por uma cena, quando o ouvinte a escuta logo a associa a uma
imagem. Já na pintura, destacam-se nomes como Delacroix,
Gericault, Goya;
os artistas desse movimento utilizavam em suas obras cores fortes criando uma
impressão de realidade aos quadros, deixando-os mais dramáticos e verossímeis.
Na arquitetura, novos materiais começaram a aparecer e foram bastante
utilizados pelos artistas como o aço e o ferro. No Romantismo,
os artistas aboliram os modelos neoclássicos e começaram a mesclar estilos como
o gótico, o bizantino e o chinês, criando uma arquitetura
exótica. Artistas como Barry, Puguin, e Waesemann, podem ser lembrados nesse
período. Já no teatro, no ano de 1827, Victor Hugo no prefácio de sua obra
Cromwell, discute sobre a liberdade teatral.
Se
tivéssemos o direito de dizer qual poderia ser, em nosso gosto, o estilo do
drama, quereríamos um verso livre, franco, leal, que ousasse tudo dizer sem hipocrisia,
tudo exprimir sem rebuscamento e passasse com um movimento natural da comedia á
tragédia, do sublime ao grotesco; alternadamente positivo e poético, ao mesmo
tempo artístico e inspirado, profundo e repentino, amplo e verdadeiro. (HUGO,
2002, p. 77)
O autor defendia um teatro renovado, sem regras fixas,
desprendido dos modelos antigos e ultrapassados, rompendo com as três unidades
do teatro clássico (tempo, espaço, ação). Segundo Hugo, o drama seria o novo
tipo de poesia. Esse novo tipo de teatro
se manifesta valorizando a religiosidade, o individualismo, a subjetividade, o
cotidiano, denunciando desse modo os problemas sociais, humanos e morais da
época. Nomes como Goethe, Friedrich von Schiller, Victor Hugo e Almeida
Garret devem ser lembrados. Diante desses dados é vago e limitado
classificar o Romantismo somente como uma escola literária ou simplesmente como
um movimento cultural conforme para Gonzague de Reynold:
O
Romantismo é um movimento muito mais vasto que uma simples revolução literária.
Ele engloba as escolas românticas, mas as ultrapassa amplamente. Estende-se
muito além, em todos os domínios. Não há, pois, somente, um romantismo poético,
literário, há um romantismo político, social, religioso. Encontra-se o
Romantismo até nas ciências e até na vida econômica. Encontra-se na Metafísica
assim como na Psicologia. O Romantismo vai da arte à história. A tudo envolve,
a tudo impregna, como uma atmosfera (REYNOLD apud GUINSBURG, 1985, p.115)
O romantismo foi um movimento artístico de grande valia
para o mundo já que foi nesse momento que o homem passou a ser visto como um
ser que é repleto de sentimentos, não é somente racional, mas possui emoções,
sonhos, desejos, paixões. No romantismo, o homem é o conjunto da razão e da
emoção com isso tornando-se completo encontrando seu verdadeiro “EU” interior.
O Romantismo foi influenciado pela teoria do “bom
selvagem” do filosofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), pelo lema da revolução
francesa (liberté, igualité, fraternité) e pela revolução
industrial, sendo assim, foi uma reação contra o iluminismo e ao classicismo.
Contrapondo essas tendências para os românticos o homem não era somente um ser
racional ele tinha sentimentos e emoções, o irracional nesse período é
exaltado. Em Discourssurl’origine de l’inégalité [Discurso
sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens.], Rousseau
prega que o homem nasce bom, puro e sem macula, mas os ideais da sociedade e
como ela está estruturada desintegram e desestruturam-no moralmente. O
filósofo acredita que a natureza prover ao homem tudo que ele necessita e
precisa para sobreviver, porém quando um indivíduo começa a acumular bens e
riquezas o que dantes era puro torna-se corrompido assim originando a
desigualdade social. “A vida em
sociedade, e a desigualdade produzida por ela, é que muda e altera todas as
inclinações naturais dos homens.” (GONCALVES, 2007.). Rousseau
inicia seu discurso lembrando que há dois tipos de desigualdade: a física
(idade\ sexo\ saúde) e a moral ou política. A primeira desigualdade não era
objeto de estudo do filosofo (por se de origem natural), entretanto a segunda
(moral) era a que mais o interessava. A desigualdade física é concebida pela
natureza, e não pode ser mudada, pois já está na essência do indivíduo, já a
segunda é concebida pela vontade humana sendo baseada na necessidade de sermos
melhores e superarmos o outro. Assim alguns indivíduos têm mais privilégios que
os outros prejudicando os que são mais fracos ou são desiguais fisicamente, por
isso para Rousseau uma desigualdade está diretamente ligada à outra. O homem
que é mais forte e sempre estará acima do que é mais fraco. Diante de tal
conclusão o filosofo propunha que para o indivíduo encontrar esse homem bom e
inocente deveria “mergulhar” em seu interior à procura da essência desse
indivíduo puro e sem macula que é autossuficiente com tudo o que a natureza lhe
prover e não necessita de bens sociais.
Como o mito
de Rousseau a Revolução Francesa também influenciou o Romantismo. Essa
revolução foi iniciada por vários motivos: crise social, financeira, política e
de abastecimento (fome de 1788) alterando o quadro político, social e cultural
francês. A França em meados de 1780 era
o segundo país mais populoso da Europa (perdendo apenas para a Rússia) com
aproximadamente 25 milhões de habitantes. A sociedade Francesa era dividida em
três estados: clero, nobreza (de sangue ou pela compra de títulos) e por último
os burgueses e as camadas mais populares. O
clero e a nobreza eram os mais privilegiados, pois a igreja era isenta de
impostos e ainda tinha o direito de cobrar os dízimos aos seus seguidores. Já
os gastos e extravagâncias da nobreza eram bancados pelo rei e pertencia ao
terceiro estado a responsabilidade de pagar os impostos, assim sustentando o
primeiro e o segundo estado. Porém no século XVIII essa divisão
social entrou em crise, já que o grupo que era responsável pela economia
francesa (terceiro estado) e arcava com todos os gastos do primeiro e segundo
estado estava em um lugar desprivilegiado impedindo o crescimento e
desenvolvimento do país. Por isso, para que o progresso continuasse era
necessário que o terceiro estado participasse do governo. Já
no final do século XVIII a Franca enfrentou uma grande crise econômica por
causa de safras ruins trazendo como consequência o aumento dos preços dos
alimentos, uma grande fome e a diminuição na arrecadação de imposto. Com
o passar do tempo influenciado pelas ideias iluministas o terceiro estado
começou a se revoltar e lutar pelos ideais de liberdade, igualdade, queda do
absolutismo e dos privilégios do clero e da nobreza. Diante de tal situação
houve a queda da monarquia e a ascensão da burguesia. Esse novo modelo de
sociedade e estado influenciou e inspirou parte do mundo e outros movimentos
revolucionários. Nesse processo revolucionário é inevitável citar a grande
participação das mulheres na luta pela queda do absolutismo e pelos seus
direitos de igualdade, algumas delas chegaram a lutar com vestimentas
masculinas por causa do preconceito. Não se sabe quantas mulheres lutaram na
revolução, entretanto algumas gravuras exemplificam tal ação. Como exemplo,
podemos destacar o quadro La Libertéguidantlepeuplede DelacroixEugène,
em que se observa uma mulher com os seios levemente à mostra segurando uma arma
e a bandeira da França. Conforme
Michelet “As mulheres estiveram na vanguarda da revolução. Não é de se admirar:
elas sofriam mais” (MICHELET apud BEKMAN,1885, p. 254). Foi na revolução
Francesa que as mulheres começaram a lutar pelos seus direitos tanto que segundo Secco (2004) “a Revolução Francesa foi a
primeira forma de participação política e coletiva feminina. Mesmo assim, a
Declaração do Direitos do Homem e do Cidadão não deu nenhum direito às
mulheres.” A escritora Olympe de Gouges
(pseudônimo de Marie Gouze) não contente com a situação em 1971 redigiu a Declaração dos Direitos da Mulher e da
Cidadã que não foi visto com bons olhos pela sociedade machista da época. Dessa
forma o romantismo está ligado ao espirito e ao lema da revolução francesa: liberté,
igualité, fraternité, onde os indivíduos reivindicavam a
igualdade de seus direitos como cidadãos desse modo inspirando os ideais de
liberdade de expressão e criação propagada pelos românticos. No que diz
respeito a relação da Revolução Francesa e o Romantismo Hauser afirma que:
A Revolução [Francesa] e o movimento
romântico marcam o fim de uma época cultural em que o artista se dirigia a uma
“sociedade”, a um grupo mais ou menos homogêneo, a um público cuja autoridade,
em princípio, reconhecia absolutamente. A arte deixa, porém, agora, de ser uma
atividade social orientada por critérios objetivos e convencionais, e
transforma-se numa forma de auto expressão que cria os seus próprios padrões;
numa palavra: torna-se o meio empregado pelo indivíduo singular para se
comunicar com indivíduos singulares. (HAUSER, 1972, p. 144)
Em suma, a revolução Francesa foi
um dos mais importantes processos revolucionários da história moderna. Onde
houve a alteração política, econômica e social em toda Europa, influenciando
vários processos de independência. No que tange a condição da mulher foi no
século dessa revolução que surgiu o movimento feminista que se expandiu
alcançando êxito no século XX. As mulheres dessa época também adquiriram os
direitos sobre o estado civil e o divórcio e se instituiu os mesmos direitos de
autoridade familiar tanto para o pai quanto para a mãe.
Outro
processo revolucionário que influenciou o Romantismo foi a revolução industrial
que segundo o historiador Eric Hobsbawn:
Transformou a vida dos homens além do que
se podia perceber. Ou, sendo ainda mais preciso, em seus estágios iniciais,
destruiu o antigo modo de vida, deixando-os livres para descobrirem ou fazerem,
para eles próprios, outros caminhos, se pudessem e soubessem como”.( HOBSBAWN
apud, COSTA 1969, p. 80 )
A Inglaterra foi dona de um dos
maiores impérios colonial nos séculos XVII e XVIII iniciando sua
industrialização já no século XVIII. Com tal desenvolvimento e progresso a
partir de 1770, a Inglaterra passou por uma revolução produtiva que ficou
conhecida como Revolução Industrial, chegando aos outros países da Europa, Ásia
e América a parti do século XIX. Antes desse processo revolucionário a produção
era totalmente manual, mas com o invento da bomba hidráulica (1763), do tear
hidráulico (1768), a locomotiva a vapor (1770) e o barco a vapor (1838), o
trabalho brutal foi substituído pela máquina, assim aumentando a produção
industrial trazendo um processo de transformação social e tecnológico. Apesar
de a revolução trazer dinheiro e riquezas aos burgueses os trabalhadores e as
camadas mais populares viviam em estado de miséria e em condições sub-humanas.
Mulheres, homens e até as crianças trabalhavam até 16 horas por dia em troca de
salários baixos. Diante dessa situação, a classe operaria viu que era
necessário que lutasse por seus direitos. Alguns desses operários como forma de
reivindicação destruíam e quebravam as maquinas ao invadirem algumas fábricas. No ano de 1830, alguns trabalhadores criaram um
movimento que exigiam o poder de voto masculino, entretanto, somente em 1867
esses direito foi conquistado. Ao passar dos anos as lutas das classes
operárias surtiram efeito e as leis trabalhistas e os sindicatos foram criados
com o intuito de melhorar as condições de trabalho. A luta desses operários
serviu de exemplo e influenciou os trabalhadores de diversos países que estavam
engajados na luta pelo mesmo ideal. É de suma importância para a referida
analise ressaltar a importância da mulher nessa sociedade já que o presente
tema é o assunto central dessa pesquisa. As mulheres do Século XVIII eram
obrigadas a trabalhar mais de 12 horas por dia sendo humilhadas e muitas vezes
sofrendo abusos e assédios sexuais. Entretanto, é com a Revolução industrial
que as mulheres começaram a reivindicar os seus direitos de igualdade entre o
sexo e melhores condições de trabalho. Com isso no dia 08 de marco de 1857,
cerca de cento e trinta operarias de uma fábrica de tecido, situada em Nova
York, aderiram a uma greve para reivindicar a diminuição da jornada de trabalho
de dezesseis para dez horas, igualar o salário feminino com o masculino (os
homens recebiam cerca de 60% a mais que a mulher para realizar a mesma função)
e melhores condições de trabalho. Descontente
com esse protesto a polícia reagiu com violência e as operárias foram se
abrigar dentro da fábrica onde trabalhavam e para puni-las os policiais as
trancaram e atearam fogo no local matando todas elas. Com isso, em 1910 uma
conferência na Dinamarca elegeu o dia 8 de março como o "Dia Internacional
da Mulher", homenageando as tecelãs que morreram queimadas em Nova Iorque.
Contudo, somente em 1975 a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou a
data. Alguns estudiosos dividem esse processo revolucionário em três etapas: de
1760 a 1850 a revolução industrial que
ocorreu na Inglaterra que substituiu o trabalho manual pelas máquinas
revolucionado a sociedade Inglesa. De 1850 a 1900 a industrialização se
espalha pelos países Europeus, Asiáticos e Americanos, e por último de 1900 até
a contemporaneidade onde temos a criação das multinacionais, indústrias
automotivas, o crescimento e o grande poder de influência dos meios de
comunicação, assim gerando uma sociedade consumista e preocupada com os avanços
tecnológicos. A
Revolução Industrial facilitou, modernizou e tornou os métodos de produção mais
eficientes. A produção em massa barateou os produtos e incentivou o consumo.
Entretanto, podemos citar vários pontos negativos como o desemprego, a poluição
ambiental e o êxodo rural que trouxe como consequência o aumento desenfreado
das cidades nos grandes centros urbanos.
A chegada da Família Real Portuguesa no Brasil em 1808
no Rio de Janeiro fez com que um processo diferente acontecesse: houve a
necessidade de bibliotecas, tipografias, impressão dos primeiros livros no
Brasil, abriram-se cursos e fundaram-se escolas superiores. Com toda a corte
instalada no Brasil, e tornando o país sede da Monarquia, começa de forma
vagarosa o processo de desligamento de Portugal, tornando-se mais efetivo em
1821 com a volta do Rei para Lisboa, deixando o seu filho mais velho como herdeiro
do trono. Pedro fora pressionado pelos manifestos a declarar independência e
acaba por se tornar o Imperador da nova ex-colônia, mantendo com as classes
dominantes acordos como, por exemplo, a escravidão dos negros que só será
abolida muitos anos depois, em 1888. Em
1816, vem para o Brasil uma missão artística contratada na França, e acaba
inaugurando a Academia de Belas Artes, rompendo a tradição local de fundo
barroco, e substituindo pelo neoclassicismo. Resultando em trazer para essa
sociedade pensamentos e fundamentos modernos de liberdade de comercio e de
pensamento, representação social, instrução e fim do regime escravocrata. Pode
se destacar homens como o jornalista Hipólito da Costa (1774-1823), que publica
no Correio Brasiliense (1808-1822) análises políticas, pensamentos modernos,
dando ênfase ao pensamento liberal. José Bonifácio de Andrade e Silva também
tem seu papel fundamental nesse período histórico e social vivido no Brasil,
fora um ministro influente, porém mais tarde seria exilado para a França;
também assumiu posições liberais e abolicionistas. Autores como Antônio Pereira de Souza Caldas (1762-1814), Frei
Francisco de São Carlos dão sua contribuição no que se diz respeito à religião
e ao patriotismo que seria relevante ao romantismo. A pintura do Padre Jesuíno
do Monte Carmelo com seus anjos mulatos desenhados em seus painéis. Na poesia,
Domingos Borges de barros (1779-1855) apresenta versos melancólicos e
sentimentos pela natureza. Há
também frei Francisco do Monte Alverne (1784-1857) que influencia a primeira
geração romântica. Entre os anos de 1820 e 1830 um desejo de autonomia
literária influenciado pelas mudanças políticas e sociais no país, fazia
florescer o Romantismo como forma e estética a serem propagadas naquele momento
no país. Afirmando o
particularismo, a oposição aos centros urbanos, ligada assim a identidade
clássica, surgia o Romantismo, com a ideia de produção brasileira com
características próprias. Seguindo as ideias do francês Ferandi Denis
(1798-1890) que publica uma teoria até então única, que todos os países devem
ter sua literatura peculiar, relacionando as suas naturezas e determinadas
sociedades em suas obras. É apresentada a importância do índio e se torna de
fundamental importância com outros franceses na concepção da ideia do nacional
e mais legítimo. Surgiram pessoas que tiveram receio dessa nova estética que
surgia, no entanto que um grupo de jovens estudantes da Faculdade de Direito de
São Paulo promovem em 1833 através da Revista da Sociedade Filomática a repulsa
pelo romantismo, assim como Januário da Cunha Barbosa que público o Parnaso
Brasileiro, reunindo diversos poemas ainda de concepção clássica.
No ano de 1836 é publicado Suspiros poéticos e
Saudades de Domingos Gonçalves de Magalhães, considerado por muitos
estudiosos como o marco iniciador da literatura romântica Brasileira. Na
segunda e última edição da revista Niterói, Manuel de Araujo Porto-Alegre
(1806-1879) que conviveu com Almeida Garret, já exilado e que recebia das
mesmas informações renovadoras, publica o poema Contornos de Nápoles. O
romance começa por volta de 1830 através das traduções que chegam ao Brasil, do
tipo folhetinesco, com episódios melodramáticos. Considerado o primeiro
romancista Antônio Gonçalves Teixeira e Souza, publica em 1843 O filho do
pescador e mais seis romances até o ano de 1856. Suas obras tratavam de
aventuras e mistérios, não alcançando grande êxito sendo esquecidos e somente
dois tendo segunda edição até a atualidade. Porém o encanto dos brasileiros foi
com os romances de costumes, aqueles que falavam da sociedade, da natureza e o
modo de vida da sociedade carioca. Nesse
momento surge a obra de Joaquim Manoel de Macedo, A Moreninha (1844) sendo perpetuado até os dias atuais, através dos
milhares reedições. Em geral as obras de
Macedo exprimem uma estética bem romanesca, mistura de realismo com espontâneo.
Há também Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) que foi o principal poeta
romântico, sendo temático de suas poesias o índio. Pedro I abdicou do seu
trono, e fora viver em Portugal, deixando seu filho de cinco anos como
sucessor, porém só com quinze anos é declarado maior e podendo exercer como
imperador. No
ano de 1850 é extinta o tráfico de escravos, esse mesmo ano é considerado pela
literatura a consagração do Romantismo com nacionalismo expresso através do
indianismo, sendo José de Alencar o principal da prosa a apresentar essa
característica com o romance O Guarani (1857), que fora um dos livros
mais lidos pelos brasileiros, e também foi usado pelo músico Antônio Carlos
Gomes (1836-1896) como tema do livreto de sua obra. Críticos e autores começam a perceber a necessidade da
abordagem dos sertanejos, assim como os europeus com seus pastores de
bucólicas, o negro também seria parte dessa identidade nacional, por isso mais
tarde nos anos de 1860 a 1870 nasce uma literatura mais voltada ao regionalismo
e o interesse pelo negro. Considerada
a literatura da mocidade, o ultrarromantismo surge aproximadamente em 1850,
levando da melancolia ao desespero, e sentimentalismo ao masoquismo. Ironia,
sarcasmo, toques de satanismo, o absurdo e obscenidade, eram os temas que
envolviam suas poesias, porém é visto o momento de progressão no que tange a
musicalidade no verso, os temas, pouco interesse pelo patriotismo e indianismo,
continua o sentimento pela natureza e surge o desejo, sobretudo pela morte. Nesse processo temos em 1830 os
estudantes do curso de Direito de São Paulo, que dava ao Romantismo características
como rebeldia, sofrimento e mal do século. Era na Revista do Ensaio Filosófico
Paulistano (1850-1864) e Ensaios Literários do Ateneu Paulistano (1852-1860)
que a mocidade daquela época, expressava seus ideais e difundia o movimento
romântico. Há um autor muito importante nesse momento, Manuel Antônio Álvares
de Azevedo (1831-1852), que não terminou seu curso de direito, mas deixara uma
obra extensa, com contos, rascunhos, fragmentos entre outras tantas coisas
produzida pelo mesmo, com influencias de Shakespeare, Lord Byron, Hoffmann,
Heine e Musset. Foi satírico ao tratar de questões como o indianismo e a
independência literária brasileira. O autor Bernardo Joaquim da Silva Guimarães
(1827-1884) colega e companheiro de Álvares de Azevedo escreveram poesias do
estilo grotesco e obscena, fazendo importante também na prosa de estilo
regional, como na obra A Escrava Isaura (1875)
que trata de uma forma simples a questão abolicionista e a mistura das etnias e
os resultados da mesma na sociedade brasileira. Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida
(1831-1861), fora publicado entre os anos de 1852 a 1853 em folhetins, e é até
hoje um dos livros mais lidos, na época porém fora passado desapercebido pelo
público leitor. Uma
obra com ar realista retratava o pitoresco e o cotidiano da vida popular no Rio
de Janeiro. A diferença está em não respeitar a divisão do bem e o mal, isso
que ia contra a literatura predominante da época. O principal autor de romances
sem dúvida é o escritor José Martiniano de Alencar (1829-1877), responsável por
vinte romances publicados entre os anos de 1856 e 1877, suas obras são
diferenciadas, pois abordam costumes urbanos, regiões, e o índio. Com isso,
apresentou a brasilidade através da literatura e da linguagem. Romances com
donzelas e rapazes ambos idealizados, fazem parte das obras literárias, e
outras com teor realista, com complexidade humana, revelando a identidade da
sociedade daquela época. O
espetáculo de um Brasil plasticamente belo enobrecido pelas qualidades do
índio, e em Iracema (1865) a narrativa lírica dos amores de um português
e uma índia, seu êxito está presente até os dias de hoje. Ele também está
presente nos romances históricos em As minas de Prata (1859-1865), O
Sertanejo (1875) entre outros. Com a guerra do Paraguai e em, 1889 com o
fim da Monarquia, houve mudanças no país, sendo que o jornalismo ganha mais
força, as escolas de ensino superior são reorganizadas, a impressão escrita em
geral começa a ganhar uma atenção maior. No
ano de 1870, Alfredo D’escragnolle Taunay (1843-1899), brasileiro e filho de
estrangeiros, é, portanto a prova da miscigenação de etnias que acontecia no
Brasil, foi autor de obras como Retirada
da Laguna (1871), Memórias
(1848), Ouro sobre azul (1874), Mocidade de Trajano (1871) e a de mais
êxito Inocência (1872), já João
Franklin da Silveira Távora (1842-1888), marcou suas obras com dramas de
qualidade inferior, com um toque de melo dramaticidade, porém considerado
fundador do regionalismo no Nordeste, autor de obras como: O Cabeleireira, O Matuto,
Lourenço, O Sacrifício e O Casamento no Arrabalde. Em síntese, foi através do romance
romântico que a nossa literatura tornou-se por fim aberta, ou seja, coexistindo
em um mesmo âmbito o autor e o leitor, uma interação que serviu de impulso para
sobrevivência da novelística romântica, pois o romance, à medida que ia
evoluindo quanto escola, criava também mecanismos poderosos dentre os cidadãos
e as normas sociais. Demostrando
a difícil situação dos injustiçados, em histórias convidativas em que os
leitores, através da identificação, começavam a enxergar situações que se
tornavam já intoleráveis. Por isso as narrativas também introduzem um molde a
crítica social expondo o vago sucesso mundano, o ato corruptível do mundo, suas
fraquezas e a não satisfação de nossos mais nobres desejos, capaz de tornar
real, em sua interpretação o romance romântico brasileiro. Por isso esse estilo
literário demonstra, através de seu formato estético, a evolução do homem e da
sociedade na qual estava inserido, valendo-se como fundamento o contexto
histórico- político- social.
A palavra na análise vem do grego analyein e
significa desligar, dissolver, separar, decompor, ou seja, é a dissociação do
texto e seus valores filosóficos, psicológicos, sociais e históricos. Sendo
necessário examinar a obra em todos seus aspectos para que haja sucesso na
referida analise. Para tal o analista deve conhecer seu objeto de estudo de uma
forma profunda, descobrindo suas estruturas, extraindo seus princípios de
criação estética e não menos importante estudar a biografia do autor, o
contexto histórico, político e filosófico da obra. Para a análise literária é
uma importante fonte histórica, social e psicológica, pois é a partir dela que
conhecemos o contexto em que a obra está inserida. Segundo
o autor “são documentos indiretos, nos quais a experiência surge filtrada pela
imaginação, mas que documentos melhores que os artísticos para reconstruir, por
dentro, uma época ou temperamento?”. (MASSAUD, 2002, p. 19). O romance
ganha sentido quando analisado, quem sabe num segundo plano, com uma leitura
mais aprofundada, sendo desmistificada em alguns aspectos, tendo o seu lado
denotativo mais perceptível em comparação a poesia. É visto de forma clara que
os romances são em geral univalentes, porém podendo acontecer de serem
polivalentes de acordo com as “ilhas” poéticas encontradas no texto recebendo
assim um valor conotativo com uma linguagem mais metafórica. As obras mais
importantes da nossa literatura conseguem preencher esses dois aspectos de
forma igualitária, dando equilíbrio a obra. Para
análise efetiva do romance é mister um tempo maior de estudo sobre o mesmo,
enquanto numa poesia a analise pode ser feita em questão de horas. De acordo
com MOISÉS (2002, p.86) na análise de um romance há dois níveis de estudo que
conhecemos por microanálise ou microscópica que visa analisar a microestrutura
abordando o texto em um sentido mais especifico e minucioso e subdividido em
uma análise que se contenta com o pormenor, esquecendo quase que sempre do
conjunto da obra e uma análise mais particularizada, com partes determinadas
pelos personagens, o tempo, o lugar, a ação, o ponto de vista narrativo, o
diálogo, a narração, a dissertação, para isso é necessário a análise dos
acontecimentos capítulo por capítulo de forma ascendente. A microanálise ou
macroscópica que por sua vez visa a análise da macroestrutura apresenta o que
está presente dentro da microanálise, as esferas dos conceitos e sentimentos, é
o que o leitor pode supostamente imaginar através das lacunas deixadas pelo
autor. A microestrutura é composta de signos ou de símbolos e a macroestrutura
são as esferas de realidade significadas ou simbolizadas o que corresponde a
teoria de Saussere: Significado e Significante.
Segundo Moisés (2002) para o leitor ser levado a uma
microanálise, é de suma importância entender a ação que ocorre a obra, ou seja,
os gestos e atos que compõem um enredo. Divide-se em externar e internar as
ações, sendo elas acontecidas na primeira por meio de uma viagem, deslocamento
de um cômodo para o outro. No segundo, os acontecimentos são internos, passa-se
na consciência ou/ e na subconsciência da personagem, entretanto não se pode
afirmar o externo eliminado o interno e vice- versa e sim, ambos se
comunicando, podendo um prevalecer sobre o outro ou não dependendo da obra. Há
a necessidade de que a obra seja parecida com a vida real, uma coerência
relativa, semelhante ao que nos acontece diariamente, para que o leitor se
identifique gerando a catarse. É importante destacar alguns ingredientes que
compõe a ação e são eles o volume, a quantidade e a frequência, sendo a
intensidade e a densidade uma forma de balancear e saber como medir cada item
desses citados anteriormente, e assim saber o desenvolver da história e
vagareza com que o texto toma. A intensidade por sua vez tem como sinônimo a
velocidade, volume e frequência da ação, presente, sobretudo na ficção
extrospectiva, pode-se citar como referência as novelas e o romance linear,
pois os mesmos se identificam com ações mais intensas e tensas, porém pouco
profundas e densas, como ocorre no romance e no conto. A
densidade raramente observa-se em um conto, entretanto esta não está em
complexa extinção no mesmo, apesar de ser algo mais dinâmico, que exija tanto
do autor como do leitor uma maior rapidez.
Dentro do que se entende como tempo, existem três tipos, são eles: o
cronológico ou histórico que segue a linha do tempo normal, a que conhecemos
como naturais sendo mais presentes nos contos e novelas; o psicológico que vai
de acordo com o interior das personagens sem um começo, meio ou fim; e o
metafísico ou mítico é feito por meio de arquétipos, transindividual e
encontrado geralmente em romances principalmente nos introspectivos. Em síntese
segundo Moises “a noção de tempo implica a de espaço e vice e versa todo espaço
se vincula ao tempo que nele transcorre”.
Cabe na análise do espaço, entender como aparece o cenário, seja ele um
campo ou uma cidade e que funções desempenham no evolver da ação, sendo até
mesmo considerada a paisagem como uma espécie de ligação, ou melhor, de
projeção das personagens no romance psicológico. O objeto também tem sua
importância numa obra, podendo por meio da sua descrição ganhar fala e
características próprias e ajudar a solucionar certas questões envolvidas numa
obra. No romance linear, não há uma ligação com a personagem, o ambiente
geralmente é estático, inanimado e opaco, entretanto quando descrito em um
cenário, é importante leva-lo em consideração na análise pois dependendo da
obra pode ser justificada a sua presença. Na novela o ambiente é irrelevante,
indiferente, cheio de convencionalismo por seu idealismo exacerbado fugindo por
muitas vezes da realidade. Em suma, a narrativa apresenta-se de marcos
geográficos, o romancista por sua vez, procura levantar o mapa da situação com
todos os pormenores, aos mínimos detalhes, indispensáveis para trazer à
compreensão dos protagonistas em cena, sua ideia principal.
As personagens independentemente da importância que assumem no conjunto
da história são verossímeis a imagens e semelhança dos seres humanos, e por isso
a reconstituição da natureza ou do espaço onde a história transcorre são
essenciais como também é de fundamental importância em que haja em um romance
um enredo suficiente rico, forte e convincente. Por isso segundo SALCES: “Tudo
deve ser verossímil, isto é, estar ajustado á plausibilidade dos eventos que
desenrolam no mundo imaginário dos personagens e das situações criadas, gerando
assim a verossimilhança do todo” (2005, p. 95). A
narrativa deve ser, além de verossimilhante, conter uma lógica interna, uma
coerência para que haja a interação autor-leitor, fazendo com que o espectador
descubra nas lacunas deixadas pelo autor o foco da obra. As personagens podem
ser divididas em dois grupos: personagens redondos que geralmente são
profundos, com diversas qualidades ou defeitos, geram tipos e caricaturas, uma
identidade própria com mais frequência em romances psicológicos e
introspectivos. As personagens são planas, geralmente também são básicos,
simples, sem muita densidade na obra, por não terem muita profundidade,
envolvem caracteres, presentes nos contos, nas novelas e romances
lineares. As
personagens podem ser analisadas de duas formas, estaticamente e dinamicamente.
A personagem plana pode ser analisada por ambos, se aplica também nas
personagens redondas. A primeira forma diz respeito a descrição das
personagens, captando a imagem de um determinado personagem no decorrer da obra
por diversos momentos que o mesmo vive. A personagem dinâmica ocupa-se da
continuidade tantos com personagens redondos como planos, no primeiro as
personagens estão reiteradas de um defeito ou qualidade, no segundo, há uma
surpresa ou a personagem é revelada, de uma forma inesperada.
Entender quem narra a história e o modo que ele a conta é de vital
importância na análise do romance. O autor deve construir bem o narrador de sua
obra, pois o mesmo é quem faz a ponte, a ligação entre o leitor e a obra. É
necessário que o espectador entenda o ponto de vista e a perspectiva desse
mediador. Há nas narrativas três tipos de narradores, o que conta a história em
primeira pessoa (narrador personagem), sendo narrador e personagem ao mesmo
tempo, conta e participa da história simultaneamente. Já o narrador-
observador, conta a trama, de um modo neutro, não participando dos atos das
personagens, nesse caso a narração ocorre em terceira pessoa. Com o narrador
onisciente a trama é contada sem o mesmo está presente, entretanto observa e
conhece os pensamentos mais íntimos das personagens, muitas vezes intervindo e
comentando as ações das personagens. Esse tipo de narração ocorre em terceira
pessoa. Na contemporaneidade os autores, com intuito de enriquecer a obra
utilizam mais que um foco narrativo, ou seja, vários narradores interligados na
trama, deixando assim a história mais interessante, dinâmica prendendo o leitor
até o final da leitura.
O discurso é o modo como as falas das personagens são
apresentadas ao leitor. Esse s diálogos podem deixar o texto mais leve,
dinâmico, lúdico ou dificultar a leitura, dependendo da pretensão do autor e o
seu público alvo. Há três tipos de discursos, o direto onde a fala das
personagens é feita de modo imediato, interrompendo a narrativa, normalmente o
autor utiliza o travessão para marca a fala das personagens. O discurso também
pode ocorrer de forma indireta, pelo qual o autor utiliza as palavras chaves
“ele disse que”, “ela falou que”, para enfatiza a fala das personagens. Já o
discurso indireto livre mescla esses dois tipos citados anteriormente e é
utilizado para mostra os pensamentos das personagens, expressando e revelando
assim os sonhos, desejos e os anseios mais íntimos e escondidos das
personagens. Portanto,
toda a ênfase literária como também a introdução histórica junto aos
fundamentos teóricos, citados anteriormente, servem de base à análise crítica
do romance em questão. Úrsula não só
fora publicado nos moldes românticos como também foi escrito por uma mulher
negra no século XIX, o que necessariamente obriga ao leitor uma concepção do
contexto político-histórico-social em torno da autora, Maria Firmina dos Reis e
de sua obra Úrsula. Relacionando mais
uma vez: Literatura e História.
Todo o enredo é construído por meio de uma submissão ora feminina, ora
racial. A mãe de Tancredo é oprimida pelo pai, Luiza B. e Úrsula pelo
antagonista Comendador Fernando. A escrava Susana, Tulio e Antero, por sua vez,
só são oprimidos pelo senhor do qual os escravos não conseguem escapar. O
enredo está concentrado no triângulo amoroso vividos por Úrsula, Tancredo e o
Comendador, que é o assassino do Pai da jovem protagonista e acusado de
abandonar a própria irmã entrevada numa cadeira de rodas, sem dar nenhuma
assistência, ganhando formas de antagonista, maltratando escravos, dono de
terras e de homens e mulheres que viviam submetidos ao seu poder político, e,
sobretudo econômico. O
comendador Fernando se apaixona por Úrsula e começa a persegui-la, chegando a
matar Tancredo na própria noite de casamento com a filha de Luísa B...,
provocando a loucura e depois a morte da bela jovem, o antagonista acaba
morrendo de remorso após o falecimento de Úrsula. O que se pode encontrar de
forte é o que une a relação entre mãe e filha, mas deságua na impotência das
lágrimas sem uma efetiva solução, cuja morte fosse a única saída, um escape
oriundo das características românticas. Firmina torna sua obra Úrsula
verossímil no que condiz à questão do negro e também pela sua finalização, pois
diferente de outros autores românticos, Úrsula
não tem um desfecho feliz e sim cheio de desencontros e ilusões. O final da
“mocinha” é permeado com a morte e loucura.
Em seu livro, De temática abolicionista, o romance, que até então era
pouco conhecido, chamado Úrsula, de
Maria Firmina dos Reis, revela o modo perverso com que os negros eram
arrancados da África. Charles Martin pioneiro e prefaciador da obra Úrsula afirmam que “o negro,
aqui, não é apenas colocado na trama em pé de igualdade frente ao rico
Cavaleiro”. Mais que isto, ele é a “base de comparação” (REIS, 1988, p. 10-11). A obra de
Maria Firmina é representada por uma tríade africana: Túlio, Preta Suzana e
Antero que permeiam o romance, dando a ele características que o distinguem dos
demais romances abolicionistas da época. Os personagens africanos assumem uma
postura mais embasada na africanidade e a prevalência de ações a que os
escravos foram submetidos. A
preocupação da autora e o comprometimento com o personagem negro na literatura
demonstra o ideal procurado por Firmina, pois o fato inovador: era a voz do
negro dentro do romance e o perfil feminino, algo que até então não havia,
antes os mesmos tinham seus sentimentos e pensamentos expressos sob o olhar do
branco, ou seja, o colonizador. O
grande diferencial de Firmina, uma vez que a mesma além de denunciar as
atrocidades sociais reais também deu a voz do negro repleto e seguramente
verossímil “(...) Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de
infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio.” (REIS,
1988, p. 83). Percebe-se que a autora foge dos padrões convencionais da época,
da estética e moldes românticos dominantes naquele momento. Nesse romance, por
meio dos personagens negros, que são individualizados culturalmente, é revelada
a escravidão de um ponto de vista crítico, vivenciando a diáspora: “É
horrível lembrar que criaturas humanas tratem seus semelhantes assim que não
lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos!” (REIS,
1988, p. 83). Os personagens não são corrompidos pelo que viveram, antes
são oprimidos pelo sistema escravagista que imperava no Brasil no século XVIII.
O
mais jovem dos três escravos é Túlio, que na narrativa assume um papel
fundamental, sendo responsável pela aproximação entre Tancredo e Úrsula e é
também o equilíbrio e norteamento até as vozes de Preta Susana e Antero. As
características de Túlio servem como um parâmetro moral de bondade, que, mesmo
passando por infortúnios, é um ser humano elevado, de alma boa, sendo até mesmo
equiparado ao herói da trama: Tancredo.
O mísero sofria: porque era escravo, e a escravidão
não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe
implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como a sua alma. Era
infeliz, mas era virtuoso; [...] (REIS, 2004, p. 23).
O jovem
Túlio é idealizado, seus sentimentos são nobres, possuidor de um coração generoso,
e é descrito como um ser imaculado, perdoador apesar de tantas atrocidades
passivamente vividas. Em nenhum momento pensa em se vingar, ou reagir, seu
objetivo é a liberdade, é ter uma vida como a de um homem branco. “Esse beijo
selou para sempre a mútua amizade que em meus peitos sentiam eles nascer e
vigorar. As almas generosas são sempre irmãs. ’’ (REIS, 2004, p.26) A autora dá
um ar de igualdade, expondo a singeleza de uma amizade, de um laço fraternal,
essa ideia se faz presente no decorrer do primeiro capítulo, no qual as duas
almas generosas, sendo uma de um branco e outra de um negro se encontram e são
apresentadas num tom heroico e sublime.
O personagem Antero, que é um velho que
utiliza da bebida alcoólica como um escape da corrompida liberdade que
atualmente ele tem, a bebida seria um símbolo da nostalgia vivida pelo
africano. Uma forma de voltar ao passado:
É o
único vício que tenho; e ainda por conservá-lo não prejudiquei a ninguém. Que
te importa que beba, ― acrescentou com voz que queria dizer: não tens coração›
― porventura pedi-te algum dinheiro para fumo ou cachaça? — e dizendo afagava a
cabaça vazia com um desvelo todo paternal, como que arrependido de tê-la
desprezado, a ela, a sua companheira constante. Pois bem ― continuou o velho ―
no meu tempo bebia muitas vezes; embriagava-me, e ninguém me lançava isso em
rosto; porque para sustentar meu vício não me faltavam meios. Trabalhava, e
trabalhava muito, o dinheiro era meu, não o esmolei. Entendes? (REIS, 2004, p.
207)
Há presente nas falas de Antero, uma ambiguidade de
valores da cachaça, o que nos leva a um plano mais profundo de interpretação.
No Brasil, a bebida não é de boa qualidade, serve somente como símbolo de
fracasso e de vício, já na África, ela assume um papel de descanso, natural do
homem que trabalha na agricultura:
― Pois
ouça-me, senhor conselheiro: na minha terra há um dia em cada semana, que se
dedica à festa do fetiche, e n’esse dia, como não se trabalha, a gente
diverte-se, brinca, e bebe. Oh! lá então é vinho de palmeira mil vezes melhor
que cachaça, e ainda que tiquira. (REIS, 2004, p. 208)
No discurso de Preta Susana, é visto a experiência, a
voz de quem muito viveu, e sabe a diferença entre a vida na África e a vida de
liberdade no Brasil, e que para ela há uma diferença. Ocorre, então, pela
primeira vez na literatura brasileira, uma abordagem diferenciada da liberdade
na concepção do escravo. Com sua singeleza, Preta Suzana esclarece e apresenta
a realidade ao jovem Tulio que tanto buscava sua liberdade:
- Sim,
para que estas lágrimas?!... Dizes bem! Elas são inúteis, meu Deus; mas é um
tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo quanto me foi caro!
Liberdade! liberdade... ah! eu a gozei na minha mocidade! – continuou Susana
com amargura - Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher
alguma mais ditosa do que eu. Tranqüila no seio da felicidade, via despontar o
sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora. (REIS,
2004, 115)
Por meio da personagem Susana, é narrada o antes e o depois da sua
captura na África. Esta narrativa ajuda a entender a forma que é construída a
identidade do negro escravo.
Tinha
chegado o tempo da colheita, e o milho e o inhame e o mendubim eram em abundância
nas nossas roças. Era um destes dias em que a natureza parece entregar-se toda
a brandos folgares, era uma manhã risonha, e bela, como o rosto de um infante
(...). Desgraçada de mim! Deixei-a nos braços de minha mãe, e fui-me à roça
colher milho. Ah! nunca mais devia eu vê-la... Ainda não tinha vencido cem
braças de caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio
orientar acerca do perigo iminente, que aí me aguardava. E logo dois homens
apareceram, e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira - era uma escrava!
Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituíssem a
liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem
compaixão. (...) Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava -
pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! meu Deus! (...) Meteram-me a mim e a
mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto
porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo
quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as
praias brasileiras. (...) fomos
amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os
animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da
Europa. Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e
ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar,
de alimento e de água. (...) Muitos não deixavam chegar esse último extremo -
davam-se à morte. Nos dois últimos dias não houve mais alimento. Os mais
insofridos entraram a vozear. Grande Deus! Da escotilha lançaram sobre nós água
e breu fervendo, que escaldou-nos e veio dar a morte aos cabeças do motim. A
dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foram sufocadas nessa
viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades. (REIS, 2004 p. 116)
Os elementos socioculturais encontrados nesse
trecho que constituem o trabalho e a forma de vida na mãe África são descritos
de forma minuciosa pela autora, mesmo não tendo conhecimento efetivo, a obra
torna-se real pelas características e expressão de uma cultura tão distinta da
brasileira, a originalidade na obra de Maria Firmina, que rompe com os
estereótipos pré-fixados, que apresentam o negro de forma mais real, sem
preconceitos, e demonstra também a nobreza que há em seus personagens, visto
que o escravo de Firmina é aquele que tem individualidade e não é somente uma
passiva vítima da escravidão.
A dedicação à análise dos sentimentos dos
personagens escravos denota a preocupação da autora em revelar de forma natural
a capacidade sentimental e humana do negro o que a torna, devido a essa
exploração de sentidos, uma escritora original à sua época, pois além de
eternizar questões referentes à cultura negra e suas restrições frente a uma
cultura diferenciada, seu romance torna perceptível sua visão ideológica em
Úrsula, visto que a cultura do negro é expressa na obra em questão. Nesta linha
de raciocínio a cultura é: ‘’(...) é o
conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de uma dada formação social
(...)’’ (BOSI, 1992, p. 226). Consequentemente,
Firmina deixa o exemplo de um romance romântico típico do romantismo, porém com
peculiaridades únicas, partilhando de seus anseios por um país livre. Portanto,
tanto no âmbito literário, quanto no gênero especifico, ou seja, o gênero
abolicionista, o valor étnico e histórico da obra são, consideravelmente,
elementos discursivos claros e por si só capazes de caracterizar o valor da
obra, o que contribui para a análise de um período antigo importantíssimo à
literatura brasileira e cujas obras literárias e outras formas de expressão
cultural não discutiram na mesma época que Firmina abriu este novo universo: o
universo social e ideológico brasileiro, o qual permeia todo o romance Úrsula.
Com o surgimento dos ideais revolucionários, advindos
da França e toda a Europa, o Brasil começa a ser influenciado por meio das
diversas artes que chegavam até aqui. A ideia principal que propagava no fim do
século XVIII era a que a mulher completa o homem, este último era sempre
superior. Os filósofos iluministas partiram deste princípio quando se tratou de
elaborar a imagem da mulher ideal. Porém, isso não correspondia à realidade,
pois a Revolução Francesa não foi apenas uma rebelião de homens. E isso se deve
às mulheres que são as principais vítimas no que tange à crise da inflação, de
abastecimento e da desordem fiscal, fazendo com que as mulheres francesas das
comunidades periféricas da sociedade participassem ativamente em diversos
protestos. Com todo o ideal de liberdade, fraternidade e igualdade perante
determinadas situações, as mulheres francesas começaram a reivindicar os seus
direitos. Começaram a exigir o direito ao divórcio e o conseguiram em 1791. As
mulheres estavam totalmente dependentes dos maridos, não possuindo nenhum bem
que fosse realmente seu, e por isso lutavam pelo direito à propriedade,
conquistaram a Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã, no ano de 1791. O
sexo feminino começa a ganhar seu espaço, e a ter voz ativa na sociedade, uma
mudança no aspecto social e político começava a ser disseminado, e isso se
estende com grande força nas artes em geral. A Lei das Escolas de Primeiras
Letras, outorgada no ano de 1827 pelo império surge e a escolarização que até
então era desempenhada em conventos, em raras escolas particulares ou nas casas
das professoras começaram a se profissionalizar. Com o passar de algum tempo as
mulheres abriram diversas escolas, publicaram alguns livros, escreveram artigos
e fundaram jornais em defesa do direito à liberdade de expressão. E então
começou a se tratar de outras questões nos jornais, além dos direitos e deveres,
tais como, negação do papel de escrava e ser vista como propriedade do homem,
crítica ao casamento por interesse, defesa do divórcio e do sufrágio feminino e
a abolição da escravidão.
A literatura, que aos poucos foi
ganhando traços locais foi escrita e lida, em geral, por homens, embora uma ou
outra poeta seja já conhecida no século XVII. No século XIX, quando a
urbanização formou camadas médias e leitores, a mulher tornou-se parte
integrante do público e dos praticantes do ofício. Na literatura dos Oitocentos,
as sinhás do período colonial eram retratadas como lânguidas, complacentes,
dependentes e caprichosas. Na realidade, a mulher no novo mundo desempenhou
muitos papéis e atividades diferenciadas, não prescritas, até mesmo
transgressoras. Entre eles o de escritora. (TELLES, 1989, p. 73-78).
O que pode se destacar dentro dessas conquistas femininas, foi o de ter
liberdade para escrever, de transpor por meio de histórias as ideologias libertárias
e de igualdade. Em Úrsula, a autora
maranhense, que era mulata, pobre e bastarda e submetida à crítica masculina,
apresenta a voz de grupos sociais menos favorecidos; são eles os negros e as
mulheres, essas últimas por meio das personagens Suzana, Úrsula e Luísa B...,
que por meio do romance folhetinesco apresenta uma nova concepção da mulher e
do negro.
A personagem Suzana retrata a maturidade e o
conhecimento, sua concepção de alforria se entrelaça com a vida da autora, a
ideia de liberdade era a voz de Maria Firmina Dos Reis, viver livre num país
racista, não era a verdadeira liberdade. A submissão da personagem vinha não só
de ser uma mulher, mas também negra.
- Tu! tu livre? Ah não me iludas! – exclamou a velha africana
abrindo uns grandes olhos Meu filho, tu és já livre?.... – Iludi-la! –
respondeu ele (...) Mãe Suzana, graças à generosa alma deste mancebo sou hoje
livre como um pássaro, como as águas, como o éreis na vossa pátria.(...) –
Liberdade! Liberdade ah!... eu gozei em minha mocidade! – continuou Suzana com
amargura. Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma
mais ditosa do que eu. (REIS, 2004, p.114)
É por meio do testemunho desta mesma personagem que se
encontra a voz da submissão. Quando a mesma relata que teve de deixar a
família, sendo assimilada como uma mulher de virtudes, que era livre, mãe,
esposa, trabalhadora do campo. E forçada a vir para uma nova nação para ser
escravizada. É por meio de Suzana que emerge das margens do romance a voz do
negro, ganhando um grande espaço entre os personagens, assim como a autora
Maria Firmina emerge das margens de uma sociedade machista e controladora. O
discurso cristão vai dando força à voz dos personagens negros e femininos, e
convencendo o leitor aos ideais propostos, a proximidade com termos cristãos
reforça a ideia do amor ao próximo:
Senhor Deus! Quando calará no peito
do homem a tua sublime máxima - – ama a teu próximo como a ti mesmo – e deixará
de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante!... aquele que
também era livre no seu país... aquele que é seu irmão?! E o mísero sofria;
porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os
sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos,
e puros como sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seu coração
enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista. (REIS,
2004, p. 23)
As personagens femininas e suas
inquietações como mulher no século XVIII, seus limites impostos por uma
sociedade são denunciados de forma que leva o leitor a uma reflexão sobre a
submissão que era submetida:
[...] este desgraçado consórcio, que atraiu tão
vivamente sobre os dois esposos a cólera de um irmão ofendido, fez toda a
desgraça da minha vida. Paulo B... não soube compreender a grandeza de meu
amor, cumulou-me de desgostos e de aflições domésticas, desrespeitou seus
deveres conjugais, e sacrificou minha
fortuna em favor de suas loucas paixões.
(REIS, 2004, p.102).
Nas entrelinhas de cada fala, é visto o desabafo de
milhares de mulheres daquela época, diversas circunstâncias que faziam da
mulher um personagem dominado por homens, sem autonomia para suas próprias
decisões, e a voz desse grupo é elevada por meio de personagens como Luíza B...
Que ao relatar o que viveu aponta para algumas lacunas que deveriam ser
revistas pela sociedade. Luíza
B... sofre há 12 anos numa cadeira de rodas, viúva e abandonada pelo irmão, e
não tem outra saída senão cuidar de sua filha até a
chegada de sua morte. Após a morte do seu marido, o comendador Fernando
comprara as dívidas do casal e assim tornara a irmã e a sobrinha sua
propriedade. Contudo, era por meio da paralisia da mãe de Úrsula que
autora representava a mulher sem poder se locomover, estagnada e dependente do
esposo, filhos, para dar voz as suas vontades. Estar presa numa cadeira de
rodas simbolizava o sentimento da mulher perante a sociedade.
Há doze anos que arrasto a custo esta
penosa existência. Só Deus conhece o sacrifício que hei feito para conservá-la.
Parece-vos isto incompreensível? – interrogou ela ao mancebo, que atento a
escutava – Sou mãe, Senhor! Vede minha pobre filha! É um anjo de doçura e
bondade, e abandoná-la, e deixa-la só sobre este mundo, que ela mal conhece, é
a maior dor de quantas dores hei provado na vida. Sim, É a maior dor- continuou
ela com amargo acento – porque então perderá o único apoio que ainda lhe resta!
Ao menos se meu irmão pudesse esquecer o seu ódio, e protegê-la!... (REIS,
2004, p.100)
A jovem protagonista Úrsula saia do berço sem
esperanças, pois seu pai já havia a deixado, teria morrido ainda na infância da
jovem donzela, que cresceu à margem da sociedade por não ter o amparo de uma
figura masculina.
- Não, senhor – ninguém, a não ser
eu, sentiu a morte de meu esposo. A justiça adormeceu sobre o fato, e eu, pobre
mulher, chorei a orfandade de minha filha, que apenas saía do berço, sem uma
esperança, sem um arrimo, [...] (REIS, 2004 p.103)
A pobre órfã Úrsula que não vivia presa a um castelo,
mas sim a cama de sua mãe, teria as mesmas inseguranças que outras jovens de
sua época, fato de ser dependente de um dote e até mesmo de um nome, para ter
segurança e estabilidade para um bom casamento, já não tinha pai, e isso era um
dos fatores sociais que impediam muitas mulheres de se casarem, assim, iria
acontecer com Úrsula, que tinha uma mãe desenganada, por todas as circunstâncias
que envolviam a donzela pra um triste fim.
Úrsula
denuncia questões inerentes à servidão negra, pregando a liberdade daquele que
fora tirado sem nenhuma misericórdia de sua terra e tratado como objeto sem
valor. A autora ousou em seus textos, já que dentro da sociedade machista da
época uma mulher e, sobretudo, negra, não deveria em nenhuma hipótese
participar da criação literária do país. Apesar disso, a autora inova em seu
discurso antiescravagista e os ideais abolicionistas mostrados sob a ótica do
negro, já que em outras obras essas questões eram abordadas na visão do senhorio
e da elite da época. Firmina foge do estereótipo dado ao negro e a mulher e os
mostra como íntegros e justos mesmo sofrendo com a servidão e submissão imposta
pelos grandes senhores. O negro bom e fiel à sua identidade também foi mostrado
pela norte americana Harriet Beecher Stower em sua obra A cabana de pai Tomás. Firmina torna sua obra Úrsula verossímil no
que condiz à questão do negro e também pela sua finalização, pois diferente de
outros autores românticos, Úrsula não
tem um desfecho feliz e sim cheio de desencontros e ilusões, o final da
“mocinha” é permeada com a morte e a loucura. Há muito tempo
discutem-se questões referentes às classes sociais como o preconceito racial e,
principalmente, a igualdade, no entanto, Maria Firmina inaugurou essa
representação literária, gerando assim, um novo olhar no período romântico,
construindo uma visão inteiramente nova sobre o personagem negro e nisto
consiste a ideologia dessa escritora, que comparando Úrsula a outras obras da época, como Vítima Algozes e Escrava
Isaura, em que o perfil do negro dentro da narrativa é exposto apenas por
segundos e terceiros, e que são fisicamente e psicologicamente perversas gerando
assim contradições. Como visto anteriormente, escritores como Joaquim Manoel
Macedo ao publicar Vítimas Algozes
não diferenciou, no sentido psicológico, a imagem do negro e o pôs, como de
costume, numa escala bem inferior à do branco:
Os escravos muitas vezes prejudicam ao seus
senhores cem vezes mais do que estes podem calculam, fazendo refalsada e
misteriosamente o dano que podem. (...) Basta um escravo perverso para a
sementeira de ruínas (MACEDO. 2010 p. 94).
Além do negro e das questões relacionadas à liberdade,
Firmina apresenta a mulher e o homem afrodescendente de uma forma diferenciada:
a preta Suzana, por exemplo, no que condiz as características físicas não é
mostrada como objeto sexual, já que boa parte dos autores mostravam a mulher
negra explorando a sua sexualidade. Firmina inova e aborda questões referentes
ao sofrimento vivenciados pelas negras da época. Outra inovação da autora é um
capítulo feito para a negra Suzana que conta para Tancredo sua dor e sofrimento
ao sair de sua terra ainda jovem: “E logo dois homens apareceram, e
amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira - era uma escrava! [...] os
bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão.” (REIS,
2004, p.116). Suzana é a voz de uma ancestral que foi retirada de sua terra por
uma forma desumana e desleal não só ao negro, mas também ao ser humano. Dessa
forma, com essa abordagem diferenciada Firmina constrói a identidade do
escravo, que, apesar de submisso, luta pela sua liberdade e não permite que a
dor da escravidão apague a sua cultura, religião filosofia e, sobretudo, seu
caráter e, desse modo, eternizando sua história e valores. Por isso para Charles Martin, prefaciador da
terceira edição do romance Úrsula, é
importante ressalta que: ‘’(...) É em Úrsula, no
entanto que vemos uma genuína preocupação com a história, o elo com a África e
a consciência para com as próprias raízes, ao contrário dos demais livros
abolicionistas, que raramente mencionam a África como verdadeira terra natal
dos negros (...) ’’(REIS, 1988).
. Além
de questões inerentes a escravidão, o Romance Úrsula revela um povo e a sua cultura caracterizando a submissão
como forma de resistência e dando a voz de dois grupos oprimidos caracterizando
a sociedade brasileira do século XIX. A impotência diante do patriarcalismo e
machismo fizeram da autoria de Maria Firmina dos Reis um diferencial para sua
geração, e é diante de tantas injustiças que a figura do negro e a mulher são
apresentados sobre uma perspectiva diferenciada. Com isso a autora apresentou em Úrsula o olhar de afrodescendente, uma
narrativa cujos personagens negros têm voz ativa e fazem, diretamente, parte do
enredo. O romance Úrsula
ultrapassa a dimensão abolicionista já que Firmina mostra o negro como ser
humano e que merece ser ouvido.
E com ousadia, a Maranhense eleva a condição do negro, fazendo dele um herói,
inaugurando essa posição que até então em outras obras do mesmo período não
havia. Nesse
romance a mulher é vista como alguém que apesar de submissa têm opinião
e não é somente um objeto sexual, porém vive atrás da “sombra” do homem,
respeitando sempre o limite imposto pela sociedade e por leis retrogradas. É
por meio da submissão que lateja incessantemente o discurso feminino e por meio
das personagens que se revestem de resistência e ganham características de
representantes de um movimento que estava por surgir, devido a revoluções
advindas da França. Como a maioria dos leitores eram mulheres, o alvo de Maria
Firmina estava sendo alcançado, e foi por meio da literatura e da voz
incessante da autora que muitas organizações femininas ganharam força e fizeram
acontecer a mudança necessária da posição das mulheres na sociedade brasileira. A narrativa é desenvolvida por meio
da história, realidade e ficção, e é por meio da análise dos personagens femininos
e negros, do discurso permeado de religiosidade e caracterização cultural do
negro que é permissível aos leitores e pesquisadores uma proximidade e
identificação por meio do sentimentalismo romântico. A autora centraliza as
atenções em um texto de idealização amorosa, comum para o período romântico,
mas que numa análise mais profunda faz emergir o patriarcalismo escravocrata e
a passividade feminina. Tal
fato faz de Úrsula uma das obras
abolicionistas mais verossímeis, portanto sendo um diferencial que traz à tona
reflexões de um povo que por muito tempo fora apagados da nossa história,
fundando uma nova perspectiva e com ideais a frente do seu tempo Maria Firmina dos
Reis se estabelece na história como pioneira e assim, deixando um legado de
grande valia às futuras gerações de apreciadores e estudiosos da análise
literária.
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